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Em “A Nova Era e a Revolução Cultural”, Olavo de Carvalho, filósofo e escritor brasileiro, expõe o nível cultural do Brasil no início dos anos 90. Inicialmente publicado em 1994, primeiro volume de uma trilogia que imprime sua marca como grande intelectual – sendo o segundo volume “O Jardim das Aflições” e o terceiro “O Imbecil Coletivo”, o livro busca diagnosticar qual a realidade presente no Brasil no campo da cultura e da atividade intelectual.

Com uma percepção da realidade do ambiente humano digna de um genuíno observador social, Olavo detecta quais as duas grandes forças propulsoras presentes nas mentes dos intelectuais brasileiros que participavam da opinião pública (veículos de mídia, universidades, igrejas, associações e meio empresarial) na época em que o livro foi escrito: o movimento de ideias chamado de Nova Era e a Revolução Cultural. Pelo conteúdo da obra, é possível imaginar que, além de muita leitura sobre os temas, observação dos acontecimentos cotidianos dos quais estava de certa forma inserido, Olavo também fez uma reflexão acerca de toda a sua história pessoal – uma espécie de anamnese – enquanto participante de movimentos políticos em décadas anteriores, do mundo jornalístico na qualidade de jornalista que escrevia para inúmeros periódicos da imprensa nacional. Essa reflexão o permitiu perceber os efeitos gerados em si mesmo e na sociedade civil pelas ideias propagadas por aqueles movimentos. Portanto, o livro nada mais é que o grito de uma alma irrequieta com a situação alarmante e degradante da atividade dos intelectuais, ou ativistas, brasileiros contra os quais ele se levanta com argumentos arrebatadores extraídos do racionalismo clássico – como ele mesmo os define – ou filosofia clássica, e do simbolismo Bíblico representado no livro pela batalha entre Leviatã e Behemoth.

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O escritor relata que, no Brasil, até finais do século XX, não havia sequer uma tradução boa dos escritos da filosofia de Aristóteles, viga mestra de onde parte sua análise estrutural das ideias imperantes no meio cultural brasileiro. Essa ausência em nosso meio da tradição filosófica – as obras clássicas gregas, assim como os grandes medievalistas como São Tomás, teria deixado as porteiras abertas para a entrada no ambiente cultural brasileiro, ao longo do século XX, de correntes ideológicas que carecem de substrato de realidade, assim como de pseudo-filosofias que preocupavam-se mais com a praxis (ação coletiva organizada) do que com a theoria (o esforço intelectual humano na direção da captura da realidade e sua posterior compreensão). Em suma, correntes de ideias que continham soluções prontas para tentar resolver quaisquer problemas. As principais correntes presentes no Brasil e impregnadas no imaginário público, segundo o intelectual, seriam: o marxismo, o positivismo e o neotomismo. O escritor de Campinas argumenta que essas três correntes, apesar de possuírem alguns elementos filosóficos, não representam filosofias preocupadas em captar, entender e descrever a realidade, mas transformá-la com a ação prática através de solução pronta para todos os problemas. Portanto, se a verdade é a percepção da realidade que se impõe a todos independente das vontades e das ideias, tais correntes não podem estar preenchidas de elementos verdadeiros em seu todo. Esse descompasso entre captar a realidade e pensar e agir a partir de ideias e conceitos diferentes daquela – definido pelo autor como o fenômeno da paralaxe cognitiva – faz o indivíduo perder-se no oceano de ideias ‘soltas no ar’. Olavo vale-se de Aristóteles para descascar, deglutir e expelir as ideias gerais da Nova Era presentes no livro O ponto de mutação, escrito por um expoente do movimento, Fritjof Capra. A conclusão que podemos chegar após lermos as reflexões do autor sobre o livro citado é a de que não passa de um arrazoado ideológico que sugere a seus leitores ideias e profecias fantasiosas.

Quanto à Revolução Cultural, Olavo vai buscar suas raízes mais profundas vindo desde Marx e indo até o cume em Antônio Gramsci, o italiano comunista que escreveu sua obra enquanto estava em uma cadeia italiana no período do regime fascista de Mussolini. O autor relata que o Gramscismo propõe a busca pela hegemonia no campo cultural e intelectual para, posteriormente, obter a hegemonia política. Ao se agir através dessa estratégia, segundo o italiano, chegaria-se ao domínio dos meios de comunicação e da cultura até o ponto em que ‘todos seriam socialistas sem saber’. Investigando esse fenômeno ideológico no Brasil, Olavo percebe que ele se dissemina por todas as partes sem necessariamente uma representação pública formal, mas através de intelectuais ativistas espalhados por todos os ramos sociais que vão contribuindo, voluntária ou involuntariamente, para alterar o senso comum tradicional existente nas mentes dos brasileiros. Mas, engana-se ferozmente quem imagina que o propósito principal de Olavo no livro seja atacar a ideologia de esquerda em favor do resgate da ideologia de direita, sufocada no Brasil e sem espaço cultural e editorial para divulgação de seus autores internacionais proeminentes. Olavo empresta a ‘alma de Aristóteles’ para avaliar de maneira geral o conteúdo de pensamento do movimento, detectando seus propósitos, anomalias e consequências para a vida social do Brasil, como o surgimento do fenômeno da bandidolatria.

Além da análise filosófica baseada no conhecimento herdado dos gigantes gregos e medievais, Olavo também levanta a questão da vida interior do ser humano como consciência individual que se vê confrontada entre perceber e enfrentar a sua própria realidade de vida, ou evadir-se de si mesmo e buscar subterfúgio na ação coletivista. A confrontação entre a vida interior e a vida exterior na consciência individual é abordada tomando como substrato o simbolismo Bíblico retratado por William Blake na figura de Leviatã e Behemoth e bem representado no trecho abaixo extraído do livro:

“Quando, porém, o homem se furta ao combate interior, renegando a ajuda do Cristo, então se desencadeia a luta destrutiva entre a natureza e as forças rebeldes antinaturais, ou infranaturais. A luta transfere-se da esfera espiritual e interior para o cenário exterior da História. É assim que a gravura de Blake, inspirada na narrativa bíblica, nos sugere com a força sintética de seu simbolismo uma interpretação metafísica quanto à origem das guerras, revoluções e catástrofes: elas refletem a demissão do homem ante o chamamento da vida interior.
Furtando-se ao combate espiritual que o amedronta, mas que poderia vencer com a ajuda de Jesus Cristo, o homem se entrega a perigos de ordem material no cenário sangrento da HIstória. Ao fazê-lo, move-se da esfera da Providência e da Graça para o âmbito da fatalidade e do destino, onde o apelo à ajuda divina já não pode surtir efeito, pois aí já não se enfrentam a verdade e o erro, o certo e o errado, mas apenas as forças cegas da necessidade implacável e da rebelião impotente. No plano da História mais recente, isto é, no ciclo que começa mais ou menos na época do Iluminismo, essas duas forças assumem claramente o sentido do rígido conservadorismo e da hubris revolucionária. Ou, mais simples ainda, direita e esquerda.”

(Olavo de Carvalho, A Nova Era e a Revolução Cultural – Fritjof Capra & Antonio Gramsci, Campinas,SP, Vide Editorial, 2014, p. 12-13).

O trecho acima mostra que quem pretende rotular seu pensamento e sua obra como um ‘movimento político de direita contra a esquerda brasileira’ comete um erro crasso. O enfoque de Olavo vai muito além do debate entre correntes políticas. Abrange também o aspecto da vida interior da consciência individual humana (única portadora da possibilidade de apreensão de conhecimento, segundo defende o autor em sua obra filosófica), além da abordagem da alta cultura (tendo como fundamento o racionalismo clássico, não o moderno, mais ligado à matematização geral), elemento fundamental para a formação de uma elite cultural capaz de perceber, entender e descrever o que se passa na realidade do cotidiano.

Na visão do autor, portanto, para o verdadeiro exercício da filosofia, a cultura filosófica e literária é necessária, mas não suficiente, já que considera importante também a tomada de consciência da necessidade de uma vida interior atuante, e vice-versa. Em outras palavras, é a própria definição do autor para o que considera ser a filosofia: a unidade do conhecimento na unidade da consciência, e vice-versa.

Enquanto o horizonte histórico típico da intelectualidade brasileira adotado para pensar e refletir sobre nossa realidade ia somente até o período das grandes navegações – quando não parava num repertório marxista -, Olavo estica o horizonte de consciência do imaginário brasileiro ao analisar a cultura e realidade de nossos trópicos através de uma incorporação intelectual que se formou absorvendo praticamente toda a cultura filosófica e literária de vanguarda da civilização ocidental – desde os gregos, os romanos, os medievais, os árabes, os renascentistas, até chegar aos modernos para, somente depois, focar a atenção para a realidade presente. É evidente que a percepção e a reflexão do scritor sobre o que enxergava em nossa realidade brasileira no período em que compôs o livro são dotadas de uma profundidade que perpassa todo o esforço intelectual realizado anteriormente, além de elevar a uma escala inédita a qualidade do debate intelectual acerca da cultura brasileira. Não há dúvida de que o principal propósito do livro, anunciado pelo autor nas páginas iniciais será alcançado, ou seja, “…remover os obstáculos mentais que hoje impedem que a cultura brasileira receba uma inspiração mais forte do espírito divino e possa florescer como um dom magnífico a toda a humanidade.” Rufem os tambores, toquem os sinos pois, enfim, é chegada a hora da marcha triunfante para o ingresso da intelectualidade brasileira na alta cultura.