Anúncio:

A combinação dos riscos de infecção com os riscos de morte por coronavírus, somente em território chinês, resulta em uma probabilidade de 1 por 7 milhões, segundo especialista, que analisa a curiosa diferença entre risco e percepção de risco gerada pela cobertura noticiosa.

O Dr. Luis Correia, do blog Medicina Baseada em Evidências dá boas notícias para quem está apavorado com a suposta onda de mortes e infecções por coronavírus, que vem dominando os noticiários há cerca de duas semanas. Correia é cardiologista e editor do Journal of Evidence-based Healthcare.

Anúncio:

Correia exemplifica o fato curioso de que, estatisticamente, uma única viagem de helicóptero oferece um risco de morte muito maior: cerca de 1 por 250 mil. Assim, ele calcula que uma pessoa precisaria viajar à China 28 vezes para estar exposta ao mesmo risco de morte de um inofensivo passeio de helicóptero.

O médico alerta que o tema deve, sim, estar entre as preocupações dos gestores públicos, nacionais e internacionais, especialmente da área de saúde. Mas não há qualquer justificativa para preocupação por parte da população em geral, ao ponto de desmarcar compromissos, viagens e mobilizar quaisquer recursos para fugir de uma suposta pandemia. Segundo Correia, não há uma “emergência de saúde pública”.

Em seu artigo, intitulado Coronavírus: a epidemiologia do medo, Correia alerta para as diferenças entre o risco real e o perceptível, bem como o risco aplicado à população e ao indivíduo, coisas completamente distintas.

“O risco significativo de uma população sofrer uma epidemia não é o mesmo risco de um indivíduo dessa população se tornar doente”, diz Correia. “População e indivíduos da população são diferentes. Para um indivíduo doente é bom que sua doença seja menos patogênica; mas para a população, a baixa patogenecidade não é tão boa, pois aumenta a transmissão da doença”, esclarece.

Leia abaixo as explicações:

Paradoxalmente, quanto menos patogênica a doença é, mais provável desta se disseminar. O novo coronavírus tem em torno de 2% de letalidade, diferente do SARS (2003) que apresentou 10% de letalidade. A menor patogenicidade deste vírus faz com que muitos infectados não se sintam doentes e continuem transitando normalmente, aumentando a disseminação da doença. Por isso que os agentes chineses medem a temperatura de qualquer pessoa que passa pela rua.

Por outro lado, doenças de maior letalidade fazem com que o indivíduo fique tão doente que não consegue sair de casa, a não ser que seja para ir ao hospital. Assim, fica mais fácil de isolar estes indivíduos. Pior para o indivíduo, melhor para a população. No entanto, ao ver as medidas de isolamentos de cidades e agentes vestidos de branco pelas ruas, isso nos remete a uma doença de maior gravidade. Intuitivamente, ficamos com mais medo das consequências.

Assim, a probabilidade de uma epidemia se instalar não é o mesmo da probabilidade de uma pessoa ficar doente, muito menos desta pessoa morrer da doença. Ao pensar individualmente (sentimento de medo) devemos racionalizar risco e dano.

Qual o risco de eu adquirir a doença?
Qual o dano se eu adquirir a doença?

Risco de Doença

Farei um exercício probabilístico que não tem a pretensão de retratar de forma acurada a epidemiologia do problema, mas sim de tratar de forma acurada a percepção de risco quanto ao problema.

Vamos imaginar o pior cenário: vivemos na China. Até hoje foram 9.720 casos diagnosticados e 213 mortes na China. Se dividirmos o número de casos pela população da China (1,4 bilhões), a probabilidade de um chinês ter adquirido a doença até então é:

0.0007% (risco).

Justifica o medo? Não.

Sim, a doença vai se disseminar além das cifras atuais, afinal há um crescimento do número de casos. Mas observe que o denominador chinês não permitirá que a perspectiva mude.

 

Sim, é diferente um chinês em Pequim (menor risco) de um Chinês em Wuhan (maior risco). Estou trabalhando com a média ou suposição de homogeneidade de risco na China. Por outro lado, não estamos na China e nosso risco em qualquer outro lugar do mundo é menor do que Pequim. Por isso o cálculo vale para o ajuste cognitivo.

Dano da Doença

Agora vamos ao dano. Em adquirindo a doença, qual a probabilidade de morte? 2%.

Não é desprezível, mas se pensarmos na probabilidade de 98% de sair vivo e ao comparar com outras doenças agudas, até que esta não é das piores. A letalidade da pneumonia bacteriana comunitária no idoso é muito maior do que isso, sendo esta uma doença muito mais comum do que coronavírus.

Mas ninguém anda com pânico de pneumonia.

Risco de Morte: Risco*Dano

Finalmente, devemos combinar risco e dano. Ou seja, qual a probabilidade de uma pessoa da população adquirir a doença e morrer dela. Isso é uma probabilidade condicional, ou seja, P1 x P2.

Risco da doença = 0.0007% x Risco de morte = 2% = 0.00001% = 1 morte por 7 milhões

Desta forma, do ponto de vista individual, o medo não se justifica por bases probabilísticas.

Leia o artigo inteiro aqui