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Consta dos Evangelhos que Jesus Cristo afirmou ser Ele “o caminho, a verdade e a vida” (João, 14,6).

O sentido das palavras do Cristo é incomensuravelmente mais largo, profundo e transcendente do que o limitadíssimo objetivo deste texto. Mas, de qualquer forma, serve como um primeiro indicador cultural da inextricável relação existente entre verdade e vida.

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Caminho, verdade e vida são uma trindade, porque alguém já disse que o caminho se faz ao caminhar. [1] Ora, se a mensagem Evangélica indica que um só Ser reúne em si o caminho e a verdade, isso significa que o caminho se faz pela verdade e que o caminhar é a própria verdade dinamicamente constitutiva do caminho. E se o mesmo Ser reúne a verdade, o caminho e a vida, isso significa que também a vida só pode ser sustentada no caminho e na verdade. Mas, não em uma relação instrumental, causal, consequencial e sim como um trino – uno indiviso, dinâmico e mutuamente constitutivo. Não há vida sem verdade, não há vida por outro caminho. Fora disso, só descaminho, mentira ou erro e morte.

O Ser, fonte da vida é o próprio caminho que se faz unicamente da verdade. Todo o resto é ausência, é nada, o negativo, o vazio e a morte em seu aspecto mais profundo e abrangente.

Mas, não será tudo isso um artigo de fé irracional? Não será a única verdade aquela que diz que tudo é relativo, etéreo e sustentável em sua própria leveza?

A resposta só pode ser negativa. A vida, não enquanto abstração, mas a vida vivida em sua presença cotidiana está a indicar que somente se pode sustentar na verdade e que esta é realmente o único caminho para preservar a vida. A essa conclusão se chega pela razão e se pode até mesmo chegar a ela exclusivamente pela razão e pela observação pragmática. Se o elemento da fé pode surgir nos desvãos ou nas entrelinhas, ou se pode ser o transcendental necessário nessa questão, a relação não precisa se dar em um caminho de mão única, ou seja, da fé para a razão, muito menos cair no fideísmo. O caminho está à escolha de cada pensante e pode muito bem ser da razão e da observação para a descoberta, o conhecimento e, quem sabe, a fé.

Há muita confusão e falácia com respeito ao uso do termo “fé”. Lennox destaca que o uso do vocábulo nem sempre é feito deixando claro qual o significado que se pretende dar a ele naquela fala ou escrita.  O autor indica como fonte confiável para perscrutar os significados da palavra “fé” o “Oxford English Dictionary” (OED). Ali consta que a palavra “fé” se origina do latim “fide”, donde resulta também a palavra “fidelidade”, significando basicamente “confiança”, “apoio”. Nos termos do OED:

O vocábulo latino fide como seu cognato grego etimológico pistis, que se traduz no Novo Testamento, expressava os seguintes principais sentidos: 1. Crença, confiança; 2. Aquilo que produz convicção, evidência, símbolo, penhor, engajamento; 3. Confiança em seu aspecto objetivo, voto, a observância de confiança, fidelidade”. [2]

Resta claro, portanto, que fé e razão não são somente compatíveis, como podem compor (e devem) um mesmo conjunto lógico complementar e dinâmico. Não é por acaso que Einstein afirma que “a ciência sem religião é aleijada, a religião sem ciência é cega”. [3]

Retornando a Lennox:

 Então, de acordo com o OED, os principais significados atribuídos à palavra “fé” são crença, confiança e convicção procedente da confiança em um testemunho ou autoridade. Assim, as declarações “acredito na ciência”; “confio na ciência”, e “tenho fé na ciência”, todas elas têm essencialmente o mesmo sentido – e devemos notar que tal  fé/crença/confiança é considerada pela maioria das pessoas como uma garantia. [4]

A aparente “novidade” daquilo que se tem convencionado chamar de “relativismo pós – moderno”, tem antecedentes na Filosofia Pagã Antiga. Pirro de Élida (365/360 – 275/270 a.C.) inaugura o “Ceticismo”, não atribuindo distinção entre verdade e falsidade e orientando como conduta a abstenção opinativa e de julgamento, atingindo assim  à chamada “ataraxía ou imperturbabilidade”. [5]

Entretanto, como se afirmou acima, a verdade se entrelaça com a vida, é seu caminho numa inevitável dinâmica pragmática tridimensional, interpenetrante e complexa. Isso não são palavras vazias ou meramente retóricas. Descrevem a realidade. Tanto é fato que se conta que Pirro, em certa ocasião, viu o mestre Anaxarco cair acidentalmente em um poço e se manteve imperturbável não o socorrendo. Mas, uma coisa é manter-se fiel ao pirronismo filosófico quando é o outro quem cai no poço. Parece que com relação a si mesmo, Pirro nunca levou tão a sério seu discurso de suspensão do juízo. De que outra forma poderia ter ele vivido 90 anos? [6] A verdade, o caminho e a vida são inseparáveis na “práxis”, por mais que se teorize e abstraia. Qualquer ideia que não se possa sustentar na realidade, com a qual não se possa conviver, demonstra sua absoluta fragilidade e artificialidade. Como aduz Whitehead:

Um pensamento momentâneo mostra-nos que nenhuma ideia em si pode ser suficiente, pois toda ideia que encontra significação em cada acontecimento deve representar alguma coisa que contribua para o que a realidade vem a ser em si mesma. [7]

Nesse passo nem é preciso ir tão fundo. Basta o sustento num consenso fulcrado “numa cosmovisão complexa e compatível com a realidade”, capaz de ensejar “coerência existencial”, a que se chamaria de “senso comum”. [8] Basta não ceder à insanidade.  Basta compreender o fato de que “o mundo discursivo está englobado pela realidade concreta, e não o contrário”. [9]

Corretamente afirma Habermas que “o viés pragmático não nos permite duvidar da existência de um mundo percebido independentemente de nossas descrições e visto como o mesmo para todos nós”. [10] E mais:

Não há necessidade nem possibilidade de “limpar” o conhecimento humano dos elementos subjetivos e das mediações intersubjetivas, ou seja, dos interesses práticos e dos matizes de linguagem.
Isso não deve conduzir à negação da verdade e da objetividade. Enquanto lidamos com problemas dos quais não podemos escapar, temos de pressupor, não só na fala como também na ação, um mundo objetivo que não foi construído por nós e que é em grande parte o mesmo para todos nós. [11]

Ademais, com acerto, deixa claro o autor que a verdade não depende do discurso, ela o antecede em existência e é autônoma. Quando uma verdade é expressa discursivamente, não é isso que a constitui como verdade, isso apenas a apresenta de forma racional e compreensível, porque a racionalidade sozinha não basta para constituir a verdade, esta a transcende, tanto é fato que a racionalidade mesma pode produzir mentiras, assim como a lógica formal, a depender das premissas falsas ou verdadeiras que levam à conclusão. Nas palavras de Habermas: “a redenção discursiva de uma alegação de verdade conduz à aceitabilidade racional, não à verdade”. [12]

A verdade é um fato bruto, não comportando uma feição procedimentalista ou mesmo consensual. Como afirma Weber “o fato de ser verdadeiro é a verdade”. [13]

Acreditar e buscar a verdade não significa ser dogmático, irracional, inflexível, supersticioso, autoritário ou seja lá qual for o epíteto negativo que se pretenda atribuir. Significa ser realista em oposição ao relativista e pode-se dizer com Aguilar e Kreeft que “realista es, en una palavra, aquel que descubre y no inventa la realidad”. [14] Conforme explica, em continuação, Aguilar:

El personage que se opone al absolutista es el relativista. El adjetivo relativo (del latín re-latus, “traído de vuelta”) se refiere a todo lo que existe o posee  una característica sólo en comparación, con referencia a o en  conexión con otra cosa. El relativista puro cree que todas las verdades (incluyendo “el fuego quema” y “toda persona tiene derecho a la vida”) son  – permitaseme el oxímoron – objetivamente subjetivas: dependen por completo de las opiniones personales y de los condicionamentos históricos, sociales y culturales. No valen para todos los hombres ni para todas las épocas, culturas y sociedades. Cada quien y cada grupo social se propone las ideas, los criterios, los valores y las normas que quiere aceptar y poner en práctica. Nadie, pues, tiene el derecho de “imponerlos” a los demás.
Realismo y relativismo son, por tanto, dos teorias del conocimiento (gnoseologías) radicalmente opuestas. Ambas derivan de dos modos diversos de concebir al hombre (antropologías) y la realidad (metafísicas). El realista piensa (o, al menos, está abierto a pensar) que hay algo o Alguien  transcendente que ha determinado la naturaleza de las cosas y del hombre, y, por ende, ha determinado qué és lo bueno y lo malo, qué es lo que objetivamente realiza y hace feliz al ser humano. El relativista piensa en clave de inmanencia: no hay nada superior al ser humano y por tanto él es  quien debe decidir lo que está bien y lo que está mal, lo que conviene o no conviene. El choque entre estas dos metafísicas – antropologías – gnoseologías desemboca necessariamente en un choque entre dos éticas: el realista pretende descobrir las normas y valores morales que realmente perfeccionan la naturaliza humana, mientras que el relativista pretende crearlas o moldearlas a su gusto”. [15]

Perceba-se que diante do quadro exposto é mais que evidente que a postura que defende a existência de uma ordem a ser descoberta no homem, no universo, na natureza etc., é a única capaz de conferir sustentabilidade a um pensamento e, especialmente, a uma atividade científica. Sem uma crença metafísica na existência de uma ordem natural a ser descoberta em suas várias facetas, substituindo-se tal crença por outra igualmente metafísica que apregoa a inexistência de qualquer ordem, de qualquer objetividade ou realidade, mas de uma espécie de caos ou acaso a guiar os processos naturais e humanos, torna-se impossível sustentar qualquer pesquisa que se diga ou mereça o nome de científica. Tudo que emane dessa espécie de crença metafísica relativista não tem significado, coerência e, principalmente, sentido. O relativismo e o materialismo metodológico radical e tosco não são capazes de apresentar quaisquer evidências para sustentar sua “fé” na inteligibilidade do universo.

Vale citar a argumentação do químico J. B. S. Haldane:

“se os pensamentos em minha mente são apenas os movimentos dos átomos em meu cérebro – um mecanismo que surgiu por processos irracionais não guiados, por que deveria acreditar em algo  que me diz isso – incluindo o fato de que isso está feito de átomos? Em particular, que razão há para acreditar que o naturalismo é verdadeiro”? [16]

Doutra banda, reconhecer a existência da verdade e valorizar sua busca não significa a adoção de uma postura autoritária, a qual justamente obstaria esse caminho de busca da verdade. O relativismo somente aparenta abertura e tolerância, quando numa análise mais atenta se verifica que absolutiza a ideia do relativo e pretende obrigar a humanidade a quedar inerte diante do desafio do encontro, sempre precário, mas também imprescindível, com a verdade.  O relativismo, autofágico por sua paradoxal natureza (Se tudo é relativo, somente essa afirmação de relatividade é absoluta?), ocasiona um aleijão moral e intelectual no ser humano, para o qual não haverá mais sentido no exercício da sua razão. Ao menos se o relativismo for efetivamente tomado a sério e não usado como uma plataforma política de apaziguamento irresponsável ou como uma fuga da responsabilidade humana, a qual proporciona certo estado de espírito cômodo e concomitantemente embotado. É como se optássemos sermos porcos satisfeitos ao invés de homens insatisfeitos, na feliz imagem de John Stuart Mill. [17] Pior, não é exatamente como se optássemos. Na realidade, atualmente essa posição relativista costuma ser enfiada goela abaixo das pessoas sem chances de maiores discussões ou contrapontos, os quais são desqualificados como ultrapassados ou até mesmo autoritários, intolerantes, quando não fascistas!

O diagnóstico de Patapievici é certeiro:

La relación entre el hombre, su alma y la verdad  se rompió sólo en la cultura de la modernidad postmoderna. Desde ahora en adelante, se considera que professar doctrinas falsas o nocivas puede no tener, eventualmente, efectos sociales perversos. Existe la convicción de que ninguna mente se deteriora, ni tampoco el alma de uno puede venir a menos, si piensa o cree en cosas falsas. A la tardia hora de nuestra modernidad, ya no se pueden inmiscuir la verdade y el hombre. Ello significa que vivimos ya en un “mundo de la vida” que le ha  quitado al hombre, existencialmente hablando, la responsabilidad por la falsedad de su alma. [18]

Assim, uma mutilação da natureza humana acaba sendo imposta, esta sim de forma autoritária, impedindo nossa realização como seres racionais e capazes de transcendência. Não se permite o exercício daquilo que o filósofo brasileiro, citado por Angotti Neto, Mário Ferreira dos Santos, chamou de “Tímese Parabólica”, ou seja:

uma posse virtual – portanto, sempre parcial – da perfeição que tende ao bem e permite ao homem a apreciação intuitiva dos valores e sua comparação racional. Essa posse permite aproximações conscientes do bem e possibilita a experiência moral enraizada no ser humano. [19]

É essencial à humanidade do homem a humildade de reconhecer a natureza unificadora da racionalidade humana, mas, concomitantemente, os limites dessa mesma racionalidade, que a impulsionam a uma busca contínua por toda a vida, sem que jamais se possa chegar a uma explicação do todo. Daí a palavra “Filosofia” em seu sentido mais forte: somos “amigos” da sabedoria, a buscamos com ardor, mas não somos donos dela, não nos apropriamos jamais dela. A amizade pela sabedoria e sua busca incessante é um trabalho de Sísifo, mas é nesse trabalho que a grandeza do humano se faz presente. Neste ponto Camus, inobstante ser um típico pós – moderno, apresenta na obra “O Mito de Sísifo” essa nobreza incansável da humanidade do homem. Essa busca sem fim pela sabedoria pode apresentar-se como absurda (Camus), mas é aquilo que revela o valor maior da humanidade. Não importa tanto a chegada, mas o caminho a ser sempre percorrido com humildade, tenacidade e paciência. [20]

Nessas aproximações e num viável arcabouço comum de conhecimentos, noções, valores, cosmovisões etc., é que se crê, ou seja, na capacidade humana de identificar universais possíveis e reconhecer a realidade objetiva, não permitindo sua confusão com o aspecto meramente subjetivo e/ou voluntarista. Como afirma Menezes:

Não defendo aqui a existência de uma verdade absoluta, invariável, eterna, o que viria a contradizer radicalmente tudo que até hoje venho dizendo nas aulas e em livros. Entretanto, à luz de um critério historicamente variável, há, dialeticamente, certo parâmetro essencial de relativa invariança, dentro dos limites do conhecimento, que se exprime nas linhas mais gerais e universais do pensamento filosófico. [21]

Pouco importa que se pretenda com autoritarismo impor a visão relativista porque, como diz Antonio Machado:

“La verdad es lo que es y sigue siendo verdad aunque se piense al revés”. [22]

E se aquele que busca a verdade age de forma honesta e de boa fé, deve exercer e permitir o exercício da dialética no sentido da discussão sincera e aberta que procura e estuda todos os argumentos, colocando-os em contraditório. Vale a lição de Whitehead:

Na lógica formal, contradição é o sinal de derrota, mas na evolução do conhecimento real marca o primeiro passo do progresso em direção a uma vitória. Essa é uma grande razão para a máxima tolerância da variedade de opiniões. De uma vez por todas, esse dever de tolerância foi resumido nas palavras: “Deixai que ambos cresçam juntos até a colheita”. [23]

A grande questão é que com relação à verdade houve uma mudança de paradigma na abordagem filosófica. Nunes, cita o trabalho de Fernando Inciarte, da Universidade de Freiburg (Alemanha). O autor por último mencionado apresenta uma diferenciação entre “conceitos operativos e conceitos temáticos da filosofia”. Os conceitos “operativos” são aqueles que têm uma característica apodítica ou evidente, servindo de instrumentos previamente estabelecidos para a discussão de outras questões fundamentais. Essas questões que serão discutidas com o uso de conceitos operativos como instrumentos é que seriam os “conceitos temáticos”. Acontece que o tema da verdade, seja na Antiguidade, seja na época de Santo Tomás de Aquino, por exemplo, era concebido como um “conceito operativo”. Já na filosofia contemporânea a verdade “se transformou num conceito temático”. [24] E expõe Nunes:

Gostaríamos de lembrar, sob o estímulo da distinção entre conceitos operativos e temáticos que, desde a leitura das atas dum congresso filosófico sobre a verdade, realizado em 1964, ocorreu-nos a ideia de que, com efeito, durante séculos, a noção de verdade foi uma ideia indiscutível, um conceito usual ditado pelo bom senso e constituído através da reflexão, enquanto na filosofia atual, desde o século XIX, ela se transmutou num problema, numa necessidade de se celebrar um congresso filosófico sobre a verdade e a disparidade dos pontos de vista apresentados. [25]

Nada mais óbvio do que a constatação de que esse abandono da verdade como fruto do mais puro bom senso se dá por influência nefasta de um relativismo que se transformou numa espécie de moda que atropelou o realismo do mundo concreto e endeusou o subjetivismo e o império da vontade, enquanto sufocava o conceito de verdade, sob a alegação de que este não passaria de uma imposição autoritária.

O modismo se revela claramente na criação de uma falsa necessidade de originalidade que se verifica com muita facilidade em nosso tempo. Para dizer sempre algo novo é preciso que nada do que foi dito antes tenha validade assegurada, ainda que essa validade esteja comprovada pelas evidências e pelos séculos. Novamente é preciosa a descrição de Nunes:

Muitos pensadores não se capacitam de que a originalidade não é a primeira virtude dos filósofos. Parece-me que a qualidade fundamental de quem filosofa é a fidelidade ao real, sob pena do recalcitrante se tornar vítima de alucinações intelectuais e de veros absurdos. Por isso, quando um pensador timbra em não reafirmar uma tese, porque ela já foi exposta ou defendida por outrem, arrisca-se a defender frequentemente uma tolice monumental só pelo prazer de estar a dizer algo de novo e, portanto, de ser original. Ora, se em português o temo original significa “aquilo que é feito sem modelo” ou “criador de novidades”, podemos dizer de certas obras que são originais ou, também, que o são certos autores. É preciso não esquecer, porém, que em português o termo original significa ainda, “extravagante” ou “pessoa excêntrica”. E infelizmente a pretensa originalidade de muitos filósofos equivale à extravagância e à excentricidade tal como se, no domínio do pensamento, algumas pessoas pretendessem passar a vida a andar de pernas para o alto, a comer fogo ou a permanecer sentadas sem escafandro no fundo do mar. Foi só devido a essa mania de originalidade que certos autores ousaram contestar a noção clássica de verdade que na prática, na convivência com outras pessoas e nos próprios estudos pessoais, eles continuam implicitamente a admitir”. [26]

E disso conclui:

Não resta dúvida de que a concepção clássica da verdade resiste aos caprichos e às argúcias dos filósofos que tentam depenar o pássaro de bronze. Não se trata de apego ao passado ou de imobilismo intelectual. Trata-se apenas de defender e conservar uma noção perene e um valor permanente sugeridos por verdadeira necessidade da vida intelectual e da existência humana. [27]

Enfim, a verdade simplesmente existe como fato bruto. Ela apenas é desvelada ou exposta pela linguagem, não é criada por ela. Trata-se, na concepção clássica, da conformidade ou correspondência entre o pensamento e os fatos ou as coisas e objetos. O resto é alucinação e vertigem, que conduz, no máximo, à racionalização, nunca ao reto uso da razão. A verdade é o caminho e a vida em uma comunhão inseparável. Por isso não há vida sem a verdade, ela realmente liberta, mas liberta mantendo um laço que ata sem prender, que nos impede de incidir no erro e na autodestruição.

REFERÊNCIAS

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MACHADO, Antonio. Proverbios Y Cantares. In:  FERNÁNDEZ – MEDINA, Nicolás. The Poetics of Otherness in Antonio Machado’s “Proverbios y Cantares”. Cardiff: University of Wales Press, 2011.

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NUNES, Ruy Afonso da Costa. A ideia de verdade e a educação. 2ª. ed. Campinas: CEDET, 2019.

PAIM, Antonio. Liberdade Acadêmica e Opção Totalitária. 2ª. ed. Campinas: Távola, 2019.

PATAPIEVICI, Horia – Roman. El Hombre Reciente. Trad. Ileana Scipione. Barcelona: Áltera, 2006.

REALE, Giovanni, ANTISERI, Dario. História da Filosofia – Filosofia pagã antiga. Volume 1. Trad. Ivo Storniolo, São Paulo: Paulus, 2003.

WHITEHEAD, Alfred North. A ciência e o mundo moderno. Trad. Hermann Herbert Watzlawick. São Paulo: Paulus, 2006.


NOTAS:

[1] MACHADO, Antonio. Cantares. Disponível em https://www.escritas.org/pt/t/10543/cantares, acesso em 18.01.2020. “Caminhante, não há caminho, se faz o caminho a andar…”.

[2] Cf. LENNOX, John. Em Defesa de Deus – por que os novos ateus estão errando o alvo. Trad. Maria Oliveira. Porto Alegre: Verdade, 2015, p. 39.

[3] EINSTEIN, Albert, apud, JAMMER, Max. Einstein and Religion. Princeton: Princeton University Press, 1999, p. 94.

[4] LENNOX, John, Op. Cit., p. 39.

[5] REALE, Giovanni, ANTISERI, Dario. História da Filosofia – Filosofia pagã antiga. Volume 1. Trad. Ivo Storniolo, São Paulo: Paulus, 2003, p. 301.

[6] GOTTLIEB, Antony. The Dream of Reason. New York: W.W. Norton, 2000, p. 325.

[7] WHITEHEAD, Alfred North. A ciência e o mundo moderno. Trad. Hermann Herbert Watzlawick. São Paulo: Paulus, 2006, p. 121.

[8] ANGOTTI NETO, Hélio. Bioética. Brasília: Academia Monergista, 2019, p. 272 – 273.

[9] Op. Cit., p. 253.

[10] HABERMAS, Jürgen. A Ética da Discussão e a Questão da Verdade. Trad. Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2018, p. 55.

[11] Op. Cit., p. 57 – 58.

[12] Op. Cit., p. 60.

[13] Apud, PATAPIEVICI, Horia – Roman. El Hombre Reciente. Trad. Ileana Scipione. Barcelona: Áltera, 2006, p. 32.

[14] AGUILAR, Afonso. El choque de dos éticas. In: KREEFT, Peter. Relativismo: relativo o absoluto? Trad. Luis Fernando Domínguez y Olga Put. Madrid: Universidad Francisco de Vitoria, 2009, p. 16.

[15] Op. Cit., p. 16 – 17.

[16] HALDANE, J. B. S., Apud, LENNOX, John, Op. cit., p. 56.

[17] “It is better to be a human being dissatisfied than a pig satisfied; better to be Socrates dissatisfied than a fool satisfied. And if the fool, or the pig, are a different opinion, it is because they only know their own side of the question. The other party to the comparison knows both sides”. MILL, John Stuart. Utilitarianism. Kitchener: Batoche Books, 2001, p. 13. Versão digital disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/mc000211.pdf, acesso em 18.01.2020.

[18] PATAPIEVICI, Horia – Roman. El Hombre Reciente. Trad. Ileana Scipione. Barcelona: Áltera, 2006, p. 32.

[19] Cf. ANTOTTI NETO, Hélio, Op. Cit., p. 143.

[20] Cf. CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Trad. Ari Roitman e Paulina Watch. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005, “passim”.

[21] MENEZES, Djacir. Discurso no Conselho Federal de Cultura, Sessão de 4 de abril de 1979. In: PAIM, Antonio. Liberdade Acadêmica e Opção Totalitária. 2ª. ed. Campinas: Távola, 2019, p. 175.

[22]MACHADO, Antonio. Proverbios Y Cantares. In:  FERNÁNDEZ – MEDINA, Nicolás. The Poetics of Otherness in Antonio Machado’s “Proverbios y Cantares”. Cardiff: University of Wales Press, 2011, p. 130.

[23] A referência é feita, na frase que encerra a passagem de Whitehead,  a uma afirmação de Jesus na parábola do joio e do trigo (cf. Mt, 13,30). WHITEHEAD, Alfred North, Op. Cit., p. 230.

[24] NUNES, Ruy Afonso da Costa. A ideia de verdade e a educação. 2ª. ed. Campinas: CEDET, 2019, p. 165 – 166.

[25] Op. Cit., p. 166.

[26] Op. Cit., p. 189 – 190.

[27] Op. Cit., p. 202.