Anúncio:

Por mais universal e concreta que seja, nenhuma verdade pode se instalar no seio da opinião pública sem uma imagem mental dela. Isso significa que leis, opiniões, certo, errado, verdade ou mentira, dependem unicamente de uma narrativa que as condicione na imaginação da sociedade. A falta da imagem do neofascista, representada por Eduardo Fauzi, proporciona à esquerda a facilidade na utilização dos elementos que parecem incriminar a direita. Mas o contrário não acontece e não há muitas chances de acontecer.

A decisão da justiça do Rio de Janeiro que quis impedir a circulação do filme do Porta dos Fundos, do Netflix, após recurso foi para o Supremo Tribunal Federal e foi revogado pelo ministro Dias Toffoli. Mas será que uma proibição assim seria mesmo uma vitoria? Na verdade, pode representar um upgrade na narrativa da esquerda contra cristãos e respingar nos próprios cristãos que mobilizaram a ação.

Anúncio:

Tudo isso graças principalmente ao atentado perpetrado pelo suposto integralista e dançarino Eduardo Fauzi. Em recente vídeo publicado nas redes sociais, o foragido, que está na Rússia, comemorou a decisão da proibição e chegou a agradecer o grupo católico Centro Dom Bosco, autor da ação.

Em entrevista recente, Fauzi reconhece que a bandeira integralista e o nome do grupo radical foi uma “peça de marketing”, utilizando a seu favor a coincidência de notícias recentes sobre militantes integralistas nos jornais. Além disso, como veremos mais adiante, o estereótipo integralista, cuja doutrina segue inalterada desde a década de 30, já se presta a uso atual por ideologias mais dinâmicas como marxismo e o neofascismo de Alexander Dugin.

No vídeo, Eduardo Fauzi insere a decisão judicial como um troféu, um produto do coquetel-molotov jogado contra a sede da produtora. Jornais já tratam a questão como uma “comemoração da censura”, por Fauzi, que diz defender ações deste tipo em defesa do cristianismo, da família etc. Baseadas nas notícias, colunas de opinião já classificam a decisão como a culminação de uma escalada violenta de censura contra a cultura no país, processo noticiado desde o episódio da série de Bruna Surfistinha, em que o governo cogitou aplicar “filtros” na cultura, como foi dito na época.

O colunista do UOL, Leonardo Sakamoto resumiu a narrativa que os jornais desejam que seja a oficial:

“Justiça do RJ endossa coquetel-molotov ao censurar Porta dos Fundos”, diz no título.

A escolha do verbo “endossa” caracteriza bem o objetivo de grande parte do jornalismo nacional, pautado pelo desejo de, como disse o lendário editor da Piauí, “tentar pegar Bolsonaro fingindo fazer jornalismo”. Mas o jornalismo não existe sem criação de imagens nas mentes das pessoas, já alertava Walter Lippmann.

É claro que o Centro Dom Bosco não poderia prever que haveria um atentado violento contra a produtora. Sua ação judicial é, neste sentido, justíssima e além de refletir o amplo desejo da maioria dos brasileiros (que é cristã), reflete igualmente as penalidades da lei previstas para este tipo de ofensa. As críticas de liberais e libertários à decisão, enaltecendo a liberdade de expressão, refletem mais a indiferença sobre a ofensa feita do que qualquer defesa moral de belos valores. O problema não reside, portanto, na lei, mas na narrativa.

Em termos estratégicos, o Centro Dom Bosco caiu em uma armadilha e, com eles, os conservadores apoiadores de Bolsonaro. Um erro muito comum de setores conservadores é fornecer a vitimização de bandeja para a esquerda. O único trabalho da esquerda midiática é vitimizar-se e demonizar o adversário, coisa que a direita precisa aprender a fazer. Neste caso, o Porta dos Fundos nem precisou vitimizar-se. O atentado contra o grupo deu à ação judicial um caráter de ativismo jurídico auxiliar ao estereótipo da “violência da direita”, que até aquele momento se apresentava apenas como figura de linguagem.

Soa caricata, além disso, a proibição de exibição de um filme na era da Internet, como disse nas redes sociais o cineasta Josias Teófilo. Essa caricatura poupa trabalho da esquerda. Talvez a prática fosse eficiente quando havia monopólio da grande mídia na distribuição de conteúdo. Hoje, com Youtube e outros meios, nenhum filme será de fato proibido de circular. Os defensores argumentam que a proibição tem caráter simbólico, de reprimenda à ofensa. Mas é justamente nessa esfera simbólica e narrativa que a ação não terá efeito e, pior, poderá ser revertida em benefício dos criminosos, que se tornarão agora símbolos máximos da luta pela liberdade de expressão contra o sistema tirânico e violento da “onda conservadora” que elegeu Bolsonaro.

Narrativas definem certo e errado, leis e perspectivas

A aplicação da lei nada pode contra narrativas pelo simples fato de que são as narrativas e seu trabalho imaginativo e construtivo que criam as leis de uma sociedade. Qualquer um que ignore isso precisa de aulas básicas de direito. A lei vem do costume, dizem os doutrinadores. Ora, não haveria lei da homofobia nem coisas do tipo se os órgãos de mídia não houvessem se empenhado há décadas na construção do estereótipo do “pai de família” homossexual, belo, recatado e do lar. Basta uma imagem estereotípica ser criada pela imprensa e amanhã mesmo ela estará no STF clamando direito à existência.

Uma lei aplicada contra a narrativa dominante será imediatamente vista como uma lei injusta, abusiva ou, como será o caso, parte de uma escalada violenta que ganha perigosa expressão jurídica. Em um governo de direita, isso se torna ainda mais sedutor para os construtores de narrativa da esquerda, que veem nisso tudo as mãos secretas do sistema governamental, ocultando, com isso, o verdadeiro sistema de narrativas hegemônicas do qual fazem parte.

Bolsonaro nada disse a respeito do atentado e isso já vem sendo motivo de especulação de sites de extrema-esquerda. Afinal, teria Bolsonaro endossado o atentado? Sabidamente contrário a filmes que atentem contra a “moral e os bons costumes”, dirão alguns, ele certamente defenderia algo até mais violento, segundo a imaginação da maior parte da esquerda falante, que opina, que escreve e seleciona fatos para você opinar.

Mas as narrativas em atividade foram construídas por meio de notícias. Ou, pelo menos, textos assemelhados a notícias, como é o caso da coluna de Sakamoto, que embora seja um texto opinativo, precisa travestir-se de texto noticioso, como você pode observar aqui.

O elemento chave

A esquerda, em geral, tenta associar todo e qualquer conservadorismo ao fascismo. Grupos neofascistas crescem pelo mundo, impulsionados principalmente pela Rússia. Embora eles nada tenham a ver com o conservadorismo que elegeu Jair Bolsonaro, a imprensa conta com algumas semelhanças para confundir seus leitores.

O elemento chave para a compreensão do que se passou contra o Porta dos Fundos e a construção da narrativa que visa criminalizar a direita no país, é, portanto, um estereótipo faltante. Falta à mídia (e também à direita) a definição da caricatura neofascista, de caráter extremista à direta e esquerda simultaneamente. Neste aspecto, esses grupos, como o Nova Resistência, obtém imensas vantagens: ganham visibilidade através da mídia de esquerda por se parecerem com a direita (defendendo família, Deus, pátria), fornecendo uma aparência de explicação sobre a “onda conservadora” (coisa também faltante nos jornais desde as eleições).

Ao mesmo tempo, disseminam a sua crítica esquerdista de Bolsonaro, de Olavo de Carvalho, enquanto são abastecidos de credibilidade por uma estética marcadamente revolucionária.

Os jornais ainda podem contar com o desconhecimento sobre esse estereótipo, que será mantido assim para o melhor uso de suas potencialidades estratégicas. A principal delas é a sua associação com cristãos, conservadores em geral, que defendem valores como família e o nacionalismo. Embora estejam filiados ideologicamente ao ideólogo russo Alexander Dugin, o livro de Olavo de Carvalho encontrado nos pertences de Fauzi será suficiente para uma dúbia associação utilizada para minar o apoio ao presidente Jair Bolsonaro.

Os integralistas seriam aparentemente um grupo irrelevante de aficionados por doutrinas políticas fascistas do século passado. Mas hoje eles têm boas relações com o mundo da moda política.

Em entrevista ao Estadão, líderes integralistas dizem que pretendem concorrer nas próximas eleições. Apesar de se dizerem críticos da Quarta Teoria Política, alguns integralistas de São Paulo são bastante próximos do próprio Dugin, tendo um dos seus coordenadores até hospedado o ideólogo russo em sua casa.

Há um pequeno risco de isso tudo ganhar força de algo mais que uma manipulação: sabe-se que o Centro Dom Bosco não é totalmente destituído de pretensões políticas. Ao mesmo tempo e paralelamente a isso, sabe-se que integralistas circulam entre católicos (e até no governo) de maneira bastante tranquila. Eles são o fruto de ilusões e ansiedades presentes no interior do conservadorismo. O estrago político que isso poderá trazer só o tempo dirá. Mas vai depender de como os conservadores conseguirão se distinguir das ideologias que são utilizadas por grupos bem mais atuantes e donos dos verdadeiros meios de ação.

 

Inscreva-se em nossa Newsletter e receba novidades por e-mail.

 

2
Deixe um comentário

avatar
8000
2 Tópicos de comentários
0 Respostas em tópicos
0 Seguidores
 
Comentário mais reagido
Comentário mais polêmico
2 Autores dos comentários
Francisco VieiraGil Pereira Xavier Autores de comentários recentes
  Notifique-me  
Notificar de
Gil Pereira Xavier
Visitante
Gil Pereira Xavier

Vou Compartilhar esse Texto, Precisamos de Trabalhos assim….Parabéns..

Francisco Vieira
Visitante
Francisco Vieira

Caro Cristian, um excelente texto. É fato que a força das narrativas define o que é certo ou errado, legal ou ilegal perante o senso comum. Um bom exemplo: recentemente um imbecil foi fotografado ostentando uma suástica nazista em um bar, muitos ficaram perplexos. E as inúmeras vezes que a foice e o martelo foram ostentadas em manifestações? Aí, vira símbolo de luta social.