A eleição de Johnson é a coisa mais normal do mundo

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Foto: Christopher Furlong/Getty Images.
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Ninguém que acompanha a política internacional pode em sã consciência dizer que a eleição pujante e acachapante de Boris Johnson e dos conservadores na Inglaterra é uma surpresa; todavia, não se pode olhar sem surpresa a reação da mídia internacional a respeito do fato. Atribuem o resultado das urnas às coisas mais estapafúrdias do universo: É o racismo inglês! É a xenofobia! É o imperialismo britânico redivivo!

Com isso, a mídia internacional repete sem grandes variações a receita do fracasso que a caracteriza desde 2016, quando não conseguiram prever nem a vitória do Brexit, muito menos a de Trump. É que a mídia internacional se vicia numa fantasia auto-hipnótica onde as análises são feitas em cima do “wishful thinking” dos analistas internacionais, e não dos fatos trazidos pela realidade. Eu queria que Trump perdesse, pensam. Eu queria que Bolsonaro não fosse eleito. Eu queria que fosse o Corbyn o primeiro-ministro. É isso o que eles imaginam e é baseado nisso que escrevem e falam.

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Mas o que, de fato, a recente vitória de Johnson quer dizer? Que ela confirma que o povo inglês quer sair da moribunda União Européia não há dúvidas, mas com isso ainda não chegamos ao cerne da questão.

A vitória de Johnson e a saída da Inglaterra da UE fazem parte dum retorno internacional, puramente instintivo, a um entendimento mais tradicional de política — tradicional, aqui, em sentido de essência, e não de velhice. Parece que pouca gente entende que o modelo de política no qual vivemos, caracterizado por uma transição do Estado nacional para um globalismo desavergonhado (cujas faces são a ONU, a União Européia, o Mercosul, o BRICS, entre outros organismos.), é extremamente recente e absolutamente frágil (frágil porque ele engendra mecanismos estatais e políticos parrudos, pesados, complexos, mas que não agüentam fortes impactos). O modelo tradicional e normal de política, por outro lado, é descentralizador: caracteriza-se por uma distribuição em rede de núcleos locais de poder, cuja política corresponde às cores e aos temperamentos locais. Para quem ama a democracia, não há melhor modelo: os desejos da população se refletem quase que paralelamente na conduta, nas normas e no desenvolvimento político da comunidade.

Como falei anteriormente, essa visão mais tradicional de política está reacendendo no seio do Ocidente quase que de maneira instintiva e espontânea; portanto, não é possível dizer que há um desejo deliberado de transformar a política ocidental numa política puramente local. O que importa dizer é que os movimentos conservadores internacionais inegavelmente têm uma natureza invariavelmente localista (o que constantemente é confundido — acidental ou deliberadamente — com populismo). O problema, atualmente, é que estávamos entrando na fase globalista, e os movimentos conservadores tentam frear e devolver o desenvolvimento dessa tendência ao estágio anterior — o do Estado nacional (que é bem ruim, mas menos ruim que viver sob a bota da ONU).

Não sei se é possível cravar o que irá acontecer, e não quero passar as vergonhas dum Guga Chacra ou dum Caio Blinder da vida, vaticinando previsões rigorosamente erradas, mas a mim me parece que nessa jornada, o Estado nacional não tem muita chance; no momento, reações antiglobalistas estão levando a melhor — e que bom que seja assim. Se é da natureza política ser descentralizado e localista, e se o curso das coisas se orienta nesse sentido, não será incrível dizer que em 70 ou 100 anos o traço político do Ocidente possa ser mais local, mais normal, mais tradicional e mais saudável.

 

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