Como a propaganda democrática falsifica conceitos para controlar a sociedade por meio do jornalismo

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A propaganda democrática surgiu no pós-guerra, quando cientistas políticos e estudiosos de comunicação das massas, assustados com a propaganda nazista, viram a necessidade de responder na mesma moeda. Harwood Childs, autor do livro An Introduction of Public Opinion, foi até a Alemanha no tempo de Hitler e ficou entusiasmado. Para ele, a sociedade liberal, democrática por excelência, precisava de instrumentos de defesa contra aquela agressiva propaganda: precisava de “manipular para a liberdade”. A propaganda funcionou para os liberais, mas os marxistas souberam utilizá-la a seu favor.

Até hoje, os chamados isentões ou liberais propagandistas de valores abstratos da democracia (instituições etc), são produtos dessa propaganda que se beneficia de raciocínios metonímicos.

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Já virou até meme a “defesa das instituições” por políticos e celebridades já consagrados pelo rótulo de “isentões”, pessoas que pensam por metáforas e veem perfeita correspondência entre conceitos teóricos normativos como se fossem descrições objetivas de situações particulares da política. Essa confusão, que só tem sido desfeita pela malandragem cognitiva típica do brasileiro, é fruto de uma construção cuja manutenção é vista como necessária e pedagógica. Daí a postura de tutores sociais com a qual falam os isentões e “cientistas políticos”.

Conceitos como direitos humanos, igualdade, têm funções específicas dentro de um sistema democrático e seus significados, sempre cambiantes, vão abastecendo a sociedade com normas de conduta e pensamento. A palavra “empatia”, por exemplo, veio da área da psicologia comportamental, no âmbito de um modo normativo de agir para alcançar consensos em negociações. Assim como as “dinâmicas de grupo”, que viraram febre a partir dos anos 90, técnicas de transformação comportamental acabaram se normalizando como se fossem conceitos descritivos da realidade, como veremos.

Verdade x opinião: breve história do jornalismo

O jornalismo americano, herdeiro do britânico, têm profunda influência do protestantismo dos Puritanos ingleses que migraram para as colônias. Para eles, a Bíblia, a Revelação, a Verdade, não poderia ser conciliada com opiniões subjetivas, base de então no jornalismo extremamente politizado do restante da Europa. O jornalismo havia surgido na Europa pré-revolucionária como uma prática panfletária e extremamente combativa.

A imagem teórica e filosófica da oposição entre opinião subjetiva e verdade objetiva, na Europa, remonta à discussão entre fé e razão, na Idade Média, mas isso é outra história. Afinal, sendo a fé considerada, a partir do Iluminismo, uma questão subjetiva, sobrava à razão o papel de instância legítima para uma política que pretendesse alcançar a justiça. A democracia, assim, viria de um “anseio racional”, não subjetivo, embora a motivação íntima e humana pudesse ser a fé ou simplesmente uma ética racional. Primeiro, a fé é posta de lado como questão de gosto ou opinião. Depois, a valorização da ideia verdade objetiva como oposta à fé, que era vista como terreno do subjetivo, consolida-se no que chamamos de progresso da secularização.

As utopias de sociedade virtuosa, que tiveram origem na Inglaterra calvinista, não podiam prescindir de meios de controle social para as massas e de um reforço moral para as elites aristocráticas que viam a virtude pública como pedagogia essencialmente civilizadora. O poder simbólico dos predestinados era o exemplo, o testemunho público do Evangelho. A elite católica da burguesia europeia já sentia-se especialmente ofendida com o jornalismo especulatório sobre suas condutas e abraçou a ideia, imediatamente justificada, de um jornalismo isento, objetivo e que precisaria prestar contas à justiça caso mentisse. A defesa contra a difamação dessas elites predestinadas moldou a prática da difusão de informação política na Europa, o que migrou para o Novo Mundo e originou o jornalismo norte-americano, base do jornalismo brasileiro.

Verdade e mentira passaram a ser oposições sociais importantes para a propaganda das empresas jornalísticas. A diferença entre elas, mais do que moral, passou a ser mercadológica e apropriada à luta política. É deste período a chamada “metáfora do espelho”, para a qual o jornalismo espelharia a realidade. Em meio à ideologia positivista e ao entusiasmo do empirismo cientificista do final do século XIX e início do XX, jornais tentavam criar a sua versão de método científico, com investigação em coberturas de campo, confrontação de versões e contrapontos, hipóteses e uma vasta gama de figuras análogas ao método científico.

O jornalismo norte-americano se fortaleceu a partir desta trajetória, sendo importado para o Brasil quando da criação do Grupo Globo, a partir de um investimento do grupo americano Time Life. A Globo se torno líder desde então graças ao método norte-americano, que praticamente dominou o mercado jornalístico com a sua avassaladora crença na credibilidade do próprio método. Afinal, um método “herdado das ciências naturais”. É claro que este não é o único motivo.

Outras forças entraram em cena, levando à prática jornalística uma luta política mais acirrada e menos isenta. O jornalismo panfletário sempre existiu, tal como o sensacionalista e popular. Mas as empresas que desejassem se manter no mercado e vender assinatura (ao invés de exemplares nas ruas apenas) precisavam de uma forte propaganda de prática profissional na apuração dos fatos.

Acontece que a seleção dos fatos que serão narrados de maneira pretensamente neutra, nunca é objetiva e neutra. Essa seleção é e sempre foi ditada por grandes grupos detentores das empresas jornalísticas, que apenas adaptavam sua prática aos interesses desses grupos. Essa era uma situação que gerava críticas da esquerda e de veículos menos favorecidos por esses grupos.

A virada marxista no jornalístico

Mais tarde, os marxistas precisaram fazer frente a esse método de apuração, já que a ideologia trazia conceitos diversos. Até por volta de metade do século XX, o principal método do jornalismo revolucionário consistia na crítica e denúncia da submissão das empresas jornalísticas aos interesses dos grandes grupos comerciais, chamados de “o grande capital”. Críticas mais profundas, porém, começaram a surgir, vinculando a própria técnica jornalística aos interesses capitalistas, mas de maneira subliminar.

Por essas críticas ficaram famosos os frankfurtianos, ou a contribuição deles aos estudos da comunicação. O jornalista marxista Nilson Laje, no livro Ideologia e Técnica da Notícia, traz uma profunda análise do modelo norte-americano e como atua nele o que chama de “ideologia capitalista”. Essa crítica, embora aparentemente negativa, traz uma proposta positiva: a de um jornalismo atento às oportunidades de trabalhar, através dos fatos e da apuração objetiva, a ideologia marxista em seus termos mais ortodoxos dentro da sociedade democrática.

Aquela tentativa de fazer frente à propaganda totalitária foi assimilada pelos próprios totalitários

O livro de Laje é apenas um exemplo, entre tantos, de como a prática jornalística das universidades veio, ao longo do tempo, adaptando-se e desconstruindo a ideia de objetividade originária, a “metáfora do espelho”, reconhecendo os méritos da investigação isenta, mas trazendo possibilidades de construção específicas para o que os professores de jornalismo passaram a chamar de “contextualização”.

Um dos exemplos dessa adaptação é o valor jornalístico da singularidade. Um evento, personagem ou situação singular é algo que sai do trivial. Mas a singularidade não tem apenas esse sentido. Ela também pode ser apresentada como símbolo de “representatividade”, mais ou menos na linha do que defende a escola historiográfica da “micro-história”, na qual um fato ou personagem histórico comum, desconhecido ou popular, torna-se representação simbólica de uma época ou contexto social.

O uso da teoria democrática e sua ideologia propagandística foi crucial para a esquerda marxista, que sempre se utilizou da expressão “democracia” com o sentido praticamente inverso. Assim, ela beneficiou-se facilmente de todas as estratégias linguísticas traçadas pelos liberais do livre-mercado quem que estes sequer percebessem. Infelizmente, ainda há liberais, no Brasil, que pensam que o mundo se divide entre partidários do livre-mercado e os da “economia estatizada”. Sequer imaginam o longo processo de escolha e decisão, pela esquerda, das palavras de gravitam a esmo em suas cabeças ocas.

Termos como “aprofundar” ou “fortalecer” a democracia são amplamente usados sem que ninguém absolutamente se questione sobre o significado concreto a que se referem, assim como a ideia de que existiriam “instituições democráticas” por si mesmas. Aliado à decadência educacional e o franco progresso do analfabetismo funcional, esses termos ganham peso de argumentos, palavras de ordem e ideias-força que funcionam como gatilhos para reações emocionais, tão automatizadas quanto coerentes com a estratégia da esquerda.

Quando, a partir dos anos 90, a internet dividiu o bolo publicitário das empresas, os jornais sentiram-se órfãos e buscaram outras fontes. A escolha foi o Terceiro Setor, que mais do que mercadorias, oferecia pautas e belas causas sociais para as editorias, fortalecendo um conteúdo que antes era obrigado a ficar refém do que as empresas chamavam de realidade. Ao menos antes as empresas detinham alguma representatividade social. O Terceiro Setor responde apenas às agendas das elites financeiras que o mantém. Podemos chamar esse momento de uma “virada globalista” mais profunda do que antes.

A prática jornalística, antes modificada pela esquerda, pôde ser transformada ainda mais pelo novo fator de definição de pautas. Aliada aos seus velhos inimigos do “grande capital”, a esquerda fortaleceu ainda mais o domínio sobre o jornalismo noticioso, deixando de lado as colunas de opinião até que uma nova geração de opinadores surgisse naturalmente pelo efeito de longo prazo da seleção de notícias, poder definidor que dispensa o uso de outros esforços.

A longa luta contra o conceito de “livre fluxo de informação”, sobre a qual falei em A transformação social, mostra como a informação noticiosa é mil vezes mais importante e estratégica do que a simples opinião de celebridades ou analistas. Quando a instância opinativa é dominada é porque tudo o mais foi domesticado.

A crença na identificação (correspondência) perfeita entre fato jornalístico e fato concreto é um dos mais eficientes instrumentos de manipulação da linguagem e de comportamentos que os liberais puderam instalar e usar ainda hoje. Os marxistas se valem disso para, inseridos na prática dita isenta, manipular linguisticamente o método “cientificista” do jornalismo tradicional a seu favor sem que opinadores “direitistas” percebam. Afinal, a opinião é sempre sobre um fato previamente selecionado para tal. A seleção é hoje a forma mais poderosa de manipulação e definição de prioridades, critério que raramente é questionado, já que a resposta a uma interpretação noticiosa parece sempre mais sedutora para os apetites socialmente estimulados na democracia.

Isso tudo quer dizer que a oposição entre “fato ou fake” é tão complexa quanto inabarcável pelo jornalismo contemporâneo. Os debates sobre isso sempre terão um aspecto cômico ou superficial, já que por trás de uma apuração de veracidades estão outras mil escolhas tão arbitrárias quanto silenciosas.

Um fato jornalístico é a adaptação humana de uma parte da realidade adequada a interesses específicos. Pode ser o mero interesse informativo, humano e universal, da orientação no mundo. Mas cada elemento textual precisa estar em conformidade com esse objetivo. Ademais, não é mais permitido, ao jornalismo da direita, abstrair os engodos subliminares que a “extrema-imprensa” prega todos os dias em nossas mentes incautas.

Quando o editor da Piauí dá com a língua nos dentes e revela o objetivo de “fingir fazer jornalismo”, ele estava dando um recado importante ao jornalismo conservador: dizer a verdade não é suficiente. O problema está em achar que “a verdade vence a mentira”, uma das maiores armadilhas que a mentalidade liberal, e sua propaganda democrática, criou na sociedade ocidental. A realidade é inabarcável pelo jornalismo, que precisa recorrer à seleção que obedeça narrativas em jogo. Não é possível, nem desejável, que relatos factuais estejam desconectados dos interesses e das agendas concorrentes na política e na cultura. Na situação atual, um jornalismo conservador precisaria libertar-se primeiro da crença ingênua da neutralidade para poder adaptar eficientemente a linguagem político-jornalística a seu favor. Isso nada tem a ver com manipulação e muito menos com apuração objetiva e isenta da realidade. Mas sem isso o jornalismo integrador da esquerda irá sempre ditar as regras.

É preciso entender as forças em jogo e saber articular seus símbolos e mitos, suas imagens mentais, suas contradições e idiossincrasias, para comunicar à sociedade sedenta por entendimento do mundo em que vivem.

Poucos liberais ou conservadores sabem fazer uma “análise de conjuntura” como fazem os marxistas. Mas são essas análises que definiram, há anos, o ensino da prática jornalística nas universidades de onde vieram os articulistas e repórteres da Folha. Enquanto isso, resta aos conservadores usar termos como “fato ou fake”, que até a Folha usa para enganar os incautos e liberais ingênuos, cujo imaginário jaz inerte nas metáforas do espelho e do método científico de apuração de fatos.