Qual a origem do Latim e sua importância na atualidade?

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Origem da língua latina

Latino-americanos, nossa origem.
‘Latinus’ foi um dos primeiros reis da região do ‘Latium’, na península Itálica, há quase mil anos antes de Cristo. ‘Latinus’ unificou muitas tribos, espalhando a semente da, ainda rude, língua latina. Tais tribos ficaram conhecidas como tribos latinas. Como Virgílio narra na Eneida, os latinos foram surpreendidos pela chegada de uma tropa, guiada pelo herói Eneias, que adentrou as terras latinas. Eram os troianos fugidos da lendária cidade de Tróia, destruída pelos gregos. Os latinos, apesar de alguns contratempos, admiraram a força e a história dos guerreiros troianos, acolhendo-os e oferecendo-lhes, mais do que terras, a própria filha do rei, Lavínia, para ser a esposa do líder Eneias. Daqui originou-se a descendência profética, da qual seria fundada uma nova Tróia, a cidade eterna, Roma.

O casamento entre Eneias e Lavínia é o símbolo da fusão entre os povos latino e troiano. É desta união que surge a prole fundarora da lendária cidade de Alba Longa e, por fim, da cidade de Roma, por volta de 753 a.C., tendo Romulus como o primeiro rei da histórica cidade romana.

Desde o período anterior à chegada dos troianos até após a fundação de Roma, a língua permanecente foi o que conhecemos por Prisca Latinitas, “Latim Primitivo ou Antigo”. Os habitantes do Latium que viveram anteriormente à fundação de Roma são chamados de Viri prisci, “Homens do tempo antigo”. Segundo a classificação de Isidóro de Sevilha, o latim pode ser dividido em quatro classes “Latinas autem linguas quattuor esse quidam dixerunt”: Prisca- Latim do período dos primeiros reis do Lácio (Juno e Saturno) ao período das Carmen Saliare (hinos sacerdotais).
Latina- Período em que a região do Latium estruturava-se a partir da Lei das doze tábuas, “Lex Duodecim Tabularum” (base do direito romano).
Romana- Período do latim clássico.
Mixta- Uma “mistura entre Latim Clássico e Latim Vulgar.

Segundo Isidóro de Sevilha, o latim pode ser dividido em quatro classes “Latinas autem linguas quattuor esse quidam dixerunt”:

Há outras classificações de divisão da língua latina, mas cabe ressaltar que, apesar das diferenças, não existiu uma barreira linguística suficientemente acentuada para causar um desentendimento completo da variedade linguística. Ou seja, os romanos da época imperial não tinham grandes problemas para compreender os textos mais antigos.
O auge da literatura latina, a Era de Ouro, abrange o primeiro século antes de Cristo, com os consagrados escritores Virgílio, Horácio, Ovídio, Cícero, entre outros. A literatura latina superava, nesta época, a grega. O poeta Propércio, referindo-se à Eneida de Virgílio, escreveu:

nescio quid maius nascitur iliade

‘algo maior que a Ilíada está nascendo’

Latim Eclesiástico

Já no período depois de Cristo, o apóstolo Pedro fundou a Igreja em Roma. Com o propósito de proximidade ao Império Romano, os católicos escolheriam o latim para ser a língua oficial da Igreja. Porém, o uso do latim se dava, apenas, intra muros, não havia a obrigatoriedade ao uso do latim em locais fora de Roma, e a língua grega era bastante usada pelos cristãos.
Ocorre que, quando um sacerdote mudava-se para alguma região aonde o cristianismo ainda não tinha se estabelecido, ele precisava adaptar as celebrações para as novas línguas regionais, o que, além do trabalho hercúleo, o fazia gastar o seu tempo, inutilmente, pois os novos idiomas não possuíam um vocabulário que traduzisse as expressões dos ritos, advindas de uma tradição religiosa milenar com a nova liturgia da Igreja.
Tal fato expôs uma das necessidades de tornar o latim de uso comum a todas a celebrações da Igreja, em qualquer local da terra. Tal fato levou a Igreja a ser uma grande propagadora do latim na Europa.

Latim como instrumento católico

Dois importantes doutores da Igreja no século lV, Ambrósio e Hilário de Poitiers, além do legado deixado em sermões e escritos, foram grandes propagadores da música na liturgia. Trouxeram hinos em latim para a Igreja do Ocidente, dos quais o próprio Santo Agostinho dissera que alegravam e tornavam as celebrações “mais vivas”. Esses hinos contribuíram para o fortalecimento do Credo Niceno, que combatia, principalmente, a heresia ariana (aquela que negava a divindade de Cristo). Confrontando o imperador Valentiniano II, adepto ao arianismo do norte da Itália, Ambrósio elaborou hinos em nome de uma fé católica (catholica fides) entendida como universal e verdadeira.

A língua latina foi sendo talhada até transformar-se na língua litúrgica por excelência. Trazia consigo antigas inspirações da Koiné e do hebraico, enquanto muitos católicos melhoravam velhos hinos, compunham novos, criando um instrumento profundamente eficaz no fortalecimento da fé da Igreja.

Cantar uma música de ação de graças em português, inglês ou qualquer língua vernácula, pode fazer você “rezar duas vezes”, como dizia Santo Agostinho. Mas celebrar e cantar em latim eclesiástico é cantar na língua que existe somente para este fim, qual seja, revelar a presença de Cristo nesta terra. O latim da Igreja não serve para expressar técnicas mecanicistas. O latim eclesiástico também não serve para narrar histórias de romances ou ficção científica. O latim das celebrações existe somente para honrar o Verbo de Deus. Pois o Verbo se fez carne, e é através do latim que a Carne de Cristo se faz Verbo para expressar a Verdade nos hinos e nas celebrações de todos os tempos.

O latim e as línguas modernas

O latim espalhado por vastas regiões foi sendo desmembrado em vários dialetos, até chegar o momento em que não era mais possível dizer que tais dialetos fossem Latim, ainda que muito próximos.

Os dialetos tornavam-se línguas mais bem estruturadas a partir do momento em que grandes autores iam forjando sua literatura, transformando sua rudeza em línguas amplamente usadas, como o espanhol, francês, português, italiano.

No português nós tivemos Luís de Camões. A sua monumental obra Os Lusíadas foi o grande marco divisor entre uma língua rude e uma língua bem estruturada. Podemos afirmar que foi Luís de Camões que forjou a língua portuguesa, assim como Dante Alighieri o fez com o italiano. Apesar da grande semelhança entre o italiano e o latim, foi o dialeto do italiano que Dante escolheu para escrever a Divina Comédia que tornou-se no dialeto predominante daquele país.

Foi o conhecimento da língua latina destes grandes escritores que lhes conferiu a habilidade necessária para estruturar as línguas vernáculas e forjá-las em línguas mais ricas em suas estruturas, ainda que tais línguas não possam alcançar, plenamente, a riqueza do latim.

Dentre todas as línguas românicas, a última flor do Lácio foi o português. De fato, não fora o português a última língua a se desmembrar do latim, ela foi a última a ganhar uma complexidade suficiente para estar ao lado das outras grandes línguas de origem latina. É nesse sentido que podemos dizer que o português é a última flor do Lácio, onde o Lácio é como uma grande roseira donde brotou muitas flores. As flores foram alimentadas pela seiva da roseira. Conhecer a roseira é mais do que simplesmente conhecer melhor a flor; conhecer o latim é mais do que conhecer melhor o português.

Podemos aprender inglês, espanhol ou qualquer outra língua, mas o latim é mais que aprender, o latim é mais que uma língua. A seiva advinda do Lácio revigora, não apenas os nossos idiomas modernos, mas revigora o nosso modo de perceber, de pensar, de compreender a cultura antiga e a cultura de hoje.

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Ulisses Silva
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Ulisses Silva

Importante mencionar que a queda do Império Romano do Ocidente é fator essencial para se entender a transformação dos dialetos latinos em línguas vernáculas. Antes de autores adotarem e firmarem literariamente as novas línguas, estas já eram vividas no dia-a-dia, e isso se dá em função do fim do vínculo que unia todas as províncias do Império, a saber, o governo Imperial. O latim se torna língua da Igreja de Roma em função da adoção do Cristianismo pelo imperador romano, com o Edito de Milão, seguido pelo Edito de Tessalônica. O Centro político do Império passa então a ser o… Read more »

Ulisses Silva
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Ulisses Silva

Vale lembrar que os cristãos eram 1/10 do império romano antes da virada constantiniana. O Latim só foi “escolhido” como língua litúrgica nessa época. Daí a impressão de que tudo que vem antes era romano.

Ulisses Silva
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Ulisses Silva

Aí fica a dúvida: se os cristãos eram 1/10 de um império que os perseguia, como iriam escolher a língua do perseguidor. Agora, se lembrarmos que a partir de Constantino a língua do Imperador passa a ser a língua da religião, e que com Teodósio todos devem ser batizados, fica mais fácil de entender a “escolha”.