Quem financia e quem define o que é “fake news” na CPMI

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Pixabay
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Uma das bases para o conceito de fake news em uso atualmente é o expresso no influente artigo The Science of Fake News, escrito por vários autores e publicado na revista Science com objetivo de pensar soluções para o suposto problema. A definição dada no artigo é, por sua vez, definidora de outras conceituações feitas no âmbito jornalístico e midiático, sendo base para a compreensão do que se entende por fake news no mundo hoje e, portanto, no campo político decisório, uma vez que o seu objetivo é justamente a implementação de um sistema de controle da informação. Trata-se de um conceito construído para a perseguição e censura de vozes que contradigam agendas globais financiadas por uma elite financeira e ideológica, simbolizada pelo megabilionário George Soros, entre outros.

No âmbito do Congresso brasileiro, a deputada Lidice Damata (PSB-BA) foi a responsável pela convocação dos definidores do conceito de fake news que norteia os trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Ela chamou diversos especialistas que buscam um conceito amplo, mas suficiente para o que a CPMI se propõe. Vozes ligadas à elite financeira global, como associações que em geral dizem representar a “sociedade civil”, já tensionam objetivos mais amplos do que a ideia inicial da criminalização de usuários, uma espécie de primeira sugestão que abre espaço retórico a proposições aparentemente menos coercitivas, mas de controle mais profundo, tal como veremos.

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Também não é possível ou viável instrumentalizar tal definição para um uso democrático de fato, isento, neutro ou “de direita”, como ficará claro até o final deste artigo.

A primeira definidora do conceito que podemos citar é a ativista Flávia Lefévre, conselheira do Comitê Gestor da Internet (CGI). O CGI é uma entidade privada, mas com atribuições definidas por lei. O comitê foi formado em 1995, a partir de uma portaria do governo FHC, e reformulado em 2003, em um decreto assinado no governo Lula. É ainda um órgão multissetorial – seu conselho diretor tem 21 cadeiras, distribuídas entre governo, academia, empresas e sociedade civil. Já esteve na mira do governo em abril, quando de um decreto presidencial que extinguia conselhos da administração, mas acabou mantido.

Ocorre que Flávia Lefévre também acumula o contraditório papel de representante da sociedade civil no CGI através da sua ONG Intervozes, que conta com apoio institucional de fundações como a Ford e a Open Society, do bilionário progressista George Soros, segundo informa o próprio site da ONG. O Intervozes elaborou um documento em parceria com outras entidades, intitulado: Contribuições para uma regulação democrática das grandes plataformas que garanta a liberdade de expressão na internet. O documento defende o aumento progressivo da regulação de conteúdo na Internet com o objetivo de defender “os direitos humanos em sua concepção internacional”. Com a justificativa da defesa de direitos, especialmente o direito à livre expressão, o documento diz que

“o cenário atual de desenvolvimento da internet é marcado pela concentração de poder econômico de grandes corporações que, com base no uso intensivo dos nossos dados pessoais, centralizam a busca, o intercâmbio e a circulação de informações, comprometendo a ideia de uma internet descentralizada, livre e aberta”.

Em outras palavras, o direcionamento e segmentação de conteúdo, aquele que dá a você a liberdade de ordenar sua busca e receber informações de seu interesse, é visto como antidemocrático, significando que pessoas de direita, por exemplo, não deviam poder segmentar o próprio conteúdo nem serem privilegiadas em buscas quanto a estes conteúdos. O objetivo, como já abordei em outro artigo, é enfrentar o problema das “bolhas” opinativas, que segundo os engenheiros sociais provoca a tão temida e odiada polarização, fruto do confronto de ideias discordantes, o que para muitos representa ameaça à paz social e também global. Por isso, utilizam pressão sobre empresas como Google e Facebook para que regulem conteúdos e essa é uma das explicações sobre as recentes exclusões de páginas de direita e a perseguição deste tipo de conteúdo, normalmente ligando-os a “discursos de ódio”. Com clara intenção de parecer libertador, o documento defende abertamente o “aumento progressivo” da regulação da comunicação, especialmente nas redes sociais. Mas em habilidosa retórica, consegue defender explicitamente a censura em nome da “liberdade de expressão”.

O documento defende valores comuns, como a regulação contra conteúdos impróprios como pornografia, exploração sexual etc, mas o que importa aí não é o valor da proposta em si e sim quem o propõe. Entidades que financiam e estão por trás do documento são conhecidas pela manutenção de pautas da esquerda cultural e da ideologia globalista. O seu discurso funciona por meio de analogias e estereótipos, como quando propõe o combate a “ódio nacional”, dando a impressão de que se trata de combate ao nazismo, mas no fundo se trata de regular a expressão anti-globalista, contrária à agenda de progressiva interferência internacional nos países, como os objetivos de iniciativas como a Agenda 2030, que incluem promoção do aborto e ideologia de gênero.

Os autores e seus vínculos

Vejamos algo sobre alguns dos redatores do documento e suas posturas para entendemos que tipo de regulação defendem e contra quem:

Valeria Betancourt (Ecuador): diretora global do Programa de Política de Informação para a América Latina (CIPP) da Associação para o Progresso das Comunicações (APC). A ACP tem o apoio de grandes fundações, como Ford e Open Society. Veja lista de apoiadores. Apresentou palestra sobre “Princípios Feministas da Internet”, disponível no Youtube.

Juan Ortiz Freuler: Consultor sênior da World Wide Web Foundations e membro da Open Society Fellow (Open Society Internship for Rights and Governance).

Joan Barata (catalão): Um dos principais consultores da Organização de Segurança para a cooperação da Europa (OSCE), Ele presta assistência regular a diferentes organizações e entidades internacionais, incluindo o Conselho da Europa, a União Européia de Radiodifusão, a Organização dos Estados Americanos, a UNESCO e a USAID, entre outras. Barata é o fundador da empresa de consultoria CommVisions, com sede em Viena e estritamente submisso às normas da ONU para a governança global quanto à noção de “discursos de ódio”.

Como se pode observar, todos têm um mesmo estilo de formação, uma formação profundamente globalista, isto é, adeptos da ideologia segundo a qual a concentração global de poder é solução para todos os problemas sociais e econômicos, mesmo que tal poder esteja no âmbito das definições, crenças e valores, nem sempre no poder político e administrativo, embora este último venha ganhando cada vez mais interesse através de propostas como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, a Agenda 2030.

Esta estrutura política e administrativa, que carrega consigo a ideologia globalista, é a principal definidora da abordagem informativa da grande mídia e apoiada, financiada e promovida por fundações internacionais, com destaque especial para a Open Society, do bilionário progressista George Soros. Não precisamos mais nos perguntar quem define o conceito de fake news na CPMI. A resposta é óbvia e não devemos esperar qualquer neutralidade dessa iniciativa.

Há chances de uso do conceito de maneira isenta?

Alguns poderiam objetar que a definição de fake news como “politicamente orientada” poderia ser invertida e utilizada para a punição dos ativistas que promovem a campanha noticiosa, opinativa e militante através dos jornais e na política ou de maneira isenta. Mas isso não é tão simples pelos seguintes motivos: há décadas com hegemonia nos jornais, entidades da sociedade civil e na política, mas principalmente nos jornais, a esquerda detém não apenas o poder da definição conceitual tal como falamos até agora, mas o da definição emotiva, o que Walter Lippmann chamava de estereótipos.

Sucessivas coberturas de relatos diários dão conta de fatos individuais, singulares, selecionados artificialmente para serem representativos de fenômenos naturais e espontâneos, mas dentro de uma narrativa já estabelecida. Assim, não há como “reinstrumentalizar” conceitos como “discurso de ódio”, por exemplo, exceto no âmbito do que a esquerda já definiu. Diferente disso, pode ser usado pelo que chamamos de “zoeira da direita”, em páginas como “ódio do bem”, etc. Mas o poder de definição não alcança efeitos suficientemente relevantes ou rápidos de maneira horizontal, isto é, por compartilhamento indivíduo a indivíduo, como ocorre nas redes sociais. A definição de um estereótipo, de uma imagem mental sobre algo, só pode ser feita pelo acúmulo de relatos que preenchem a mente da opinião pública e a abastecem de juízos automatizados. E isso só pode ser feito através de canais com alto financiamento.

A construção de imagens sobre fatos e personagens públicos só pode ser feita a partir de um acúmulo quantitativo que está muito acima das possibilidades da mídia independente.

É por isso que a definição dos conceitos que serão utilizados é importante. Mas sem os meios de criar as imagens equivalentes ao conceito, não há modo de suplantar uma narrativa. A narrativa da esquerda está no nível da seleção editorial de fatos, eventos e construção de imagens pessoais, positivas e negativas, o que é feito em níveis semânticos e linguísticos inseridos na prática jornalística quotidiana. Isso é aprendido na universidade e transmitido através de movimentos sociais, ONGs e, por fim, transparece na retórica jornalística dos jornais. Essa estrutura, como mostrei em meu último livro, é a verdadeira falsificação da informação, que sob a premissa da transformação social, cria fantasmas e heróis para serem consumidos e adorados pela massa imediatista.m

Além disso, no processo que decorre da campanha de relatos, há uma institucionalização das imagens transformadas em conceituação técnica. Em 2018, seminários e congressos foram realizados pela Abratel, junto ao Congresso Nacional e Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sobre o “impacto político e econômico das fake news”. O conjunto das notícias e a criação de imagens relacionadas a determinados conteúdos já estabeleceu-se na opinião pública. Este processo dificilmente será revertido, mesmo com a força de toda a sociedade, já que tanto as instituições quanto a mídia colocam-se como representantes legítimos da opinião pública.