O Armada e a Cantora

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Após a noitada nababesca, o Deputado Alex Armada chegou no seu gabinete com o corpo moído e as ideias viradas.

— Aquilo que era mulher, Rubens, aquilo que era mulher…

— De quem você tá falando, excelência? Tô curioso.

— É, rapaz… aquilo é que era mulher…

Todavia, tão anuviado estava o nosso legislador, que as palavras ansiosas e insistentes do funcionário não lhe diziam nada, eram canto mudo aos ouvidos encantados daquele homem.

— Aquilo que era mulher, Rubens, aquilo que era mulher…

Ficou nisso o dia todo, feito um alucinado, olhando pro nada, avaliando como um entorpecido o horizonte da capital paulista pela janela do 24º andar.

Pois lhes conto.

Preocupado com a situação política e econômica do país, Armada foi a uma balada, como posso dizer, mais liberal, ou melhor, mais democrática. E levou consigo companheiros de legislatura e mesmo gente graúda do executivo.

Só que o Armada não estava numa boa noite. O som alto e psicodélico não o distraía, a conversa fiada dos engravatados só o enfadava. E mesmo sendo chegado na coisa, nem as mulheres em biquíni que rebolavam com empenho no palco, mendigando sua atenção, tiveram sucesso em acalmar o coração atribulado desse nosso douto parlamentar. O Brasil o preocupava. Só o Brasil passava pela sua cabeça.

Pois lá pelas tantas, vendo o naufrágio da sua diversão, Armada resolveu se entregar aos drinks. Primeiro um azul, de tutti-fruti, depois um roxo, de romã, em seguida um vermelho, de morango, por último um pink, de chiclete. E tomou-os todos, um depois do outro, como um desenganado. Tudo o que o Brasil lhe pesava nos ombros ele descontou na beberagem.

Com efeito, corrido um tempo, ele foi ficando mudado. A pele avermelhara, a musculatura amolecera, um riso solto já lhe enfeitava o semblante até ali soturno e deprimido. Era um outro.

E foi se animando. Já reparava nas dançarinas, abria papo franco com os amigos, arriscava uns passinhos com o Deputado Palhares, dançou a Macarena comandada pelo Governador.

Nisso entrou a Cantora principal: a Pillar.

A moça era alta, bem mais alta que a média feminina. E tinha uns ombros largos, muito mais largos do que Deus costuma dar às mulheres. E também se via na dita-cuja um gogó polpudo e um antebraço de quem levanta mais de 70kg no supino. Era, por assim dizer, uma mulher sui generis.

No entretanto, a Pillar estava uma beleza. Sua roupa era trabalhada na pedraria, no swarovski, no glamour. E ela se requebrava como ninguém no palco, indo de cá pra lá, num salto 15, finíssimo. Era um fenômeno. A danada cantava com estridência profissional, aos falsetes, música atrás de música, e dançava sem parar, com o fôlego de um Bolt, ela e seu grupo, homens e mulheres igualmente maquiados em cores metálicas e com trajes a um tempo sensuais e futuristas.

Pois que a cantora cismou com o Armada, e este, já pra lá de mamado, não ficou por baixo. Trocaram olhares deliciosos e piscadelas indiscretas, e nisto foi se criando uma sintonia rara entre eles. A mulher passava pelo Armada fazendo toda sorte de provocações, e mandava beijinho, acariciava seu queixo. Ele a encarava com jeito de galã global, e fazia biquinho, mordia os beiços. Os outros homens foram até ficando com ciúmes. O show, antes público, estava ficando exclusivo para o Armada.

Em resumo, trocaram amassos no camarim e acabaram no motel – com a anuência e cooperação dos amigos do Deputado. Daí que o Armada tenha acordado como vimos: dolorido e hipnotizado.

— Aquilo que era mulher, Rubens. Palavra. Aquilo é que era mulher!

Não se sabe se emplacaram caso sério – isto é coisa dos bastidores e eu não me meto em fofocaiada. Entanto, o fato, público e notório, é que a partir de então o Armada não faz nada senão gastar toda sua energia física e seu prestígio como fazedor de leis para que essa mulher, a Pillar – a maior mulher desse país, segundo seu julgamento –, se torne, nada menos, que a Ministra das Mulheres.

 

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