Os Liberais e os Demônios

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O ciclo de degradação política

Em Os Demônios de Dostoiévski há um esquema narrativo que serve para explicar, com bastante verossimilhança, o processo de ascensão dos revolucionários ao poder.

Na célebre obra, o General Stavrogin, rico, ligado à nobreza e aos costumes antigos da Rússia, morre e deixa o governo da casa e das terras à sua esposa, a livre-pensante Varvara Stavrogina.

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Varvara é uma mulher a frente do seu tempo. É liberal, adora debates inteligentes e recebe artistas, escritores e professores em sua residência. Chega mesmo a bancar uma revista de ideias avançadas que circula nas grandes cidades russas.

Essa Varvara, depois de enviuvar do general, acaba emplacando um romance esquisitíssimo com o intelectual progressista Stepan Verkhovensky. Stepan é um sujeito vacilante, tíbio, que quer ser reconhecido como um revolucionário, só que um revolucionário moderado, gradual. É um social-democrata.

Ele e Varvara travam um caso não assumido, cheio de tensões, rupturas e retornos. Contudo, o mais importante é que Varvara sustenta Stepan por anos a fio. Ele passa a morar em sua casa, come de sua comida, participa do seu luxo e, como contraparte, educa seu filho, a outra geração: Nikolai Stavrogin.

Nikolai, juntamente com Piotr Verkhovensky, filho renegado do próprio Stepan, são personagens que só aparecem do meio para o final da trama. Eles, depois de percorrerem a Europa, literalmente, trazem à casa e às terras governadas por Varvara, a revolução. Toda a cidade vira de cabeça para baixo, os costumes são afetados, os jovens são cooptados à esbórnia.

E num primeiro momento, Varvara e Stepan veem a balbúrdia toda até com certo entusiasmo, com gosto. Entretanto, logo a coisa sai do controle e descamba em incêndios criminosos, desordem social, assassinato. Demais, os dois amigos revolucionários, filhos da liberal sabida e do progressista moderado, participam de um grupo secreto que trama a revolução genocida que eles ensaiam na terra de Varvara para em seguida espalhar por toda a Rússia.

Pois então: morre o conservador, governa o liberal, que patrocina o social-democrata, que dá vida ao radical.

Embora seja um esquema transposto poeticamente e, por isso mesmo, sugira uma simplificação, se levado ao plano histórico parece corresponder quase que perfeitamente ao processo de ascensão das seitas revolucionárias na Europa.

O século XVIII iniciou a derrubada das monarquias tradicionais e a antiga ordem para que pudesse ascender ao poder os novos ricos e os livre-pensantes, estes que encabeçaram o iluminismo e a revolução francesa. Depois, o século XIX, século do burguês-liberal que decepou os reis, preparou as bases políticas e intelectuais à democracia das massas, aquela mesma de que se queixava o Ortega y Gasset, e, portanto, catapultou os empreendimentos tirânicos de um Lênin, Hitler e Stálin.

E nas histórias particulares da China e da própria Rússia o processo é bem semelhante. Em ambos lugares, os ideias do liberalismo europeu pulverizaram os impérios tradicionais e deram azo ao surgimento do banditismo político de Mao Tsé-Tung e dos bolcheviques.

E esse ciclo político, pelo menos no plano teórico, já era previsto muito antigamente na filosofia platônica. Diz Eric Voegelin em sua magistral interpretação da República no seu Platão e Aristóteles, terceiro volume de Ordem e História:

Timocracia (governo dos nobres mitigados[1]), oligarquia (governo dos ricos), democracia (governo das massas) e tirania (governo dos maus) são os estágios pelos quais a boa pólis passa em seu caminho de declínio para a última doença da cidade.  (Grifos meus).

 

A nova direita no Brasil

Se usarmos esse instrumental poético e dialético para pensarmos a atual política brasileira, pelo menos no plano das discussões dos grupos mais engajados, teremos que um efeito bem concreto desse roteiro proto-revolucionário que se segue desde 2013, foi a formação de dois grupos conflitantes dentro que se convencionou chamar de direita.

Antes de apontar os grupos, porém, vale lembrar que o nome genérico de direita se criou na medida em que, havendo uma hegemonia político-cultural da esquerda, todos os que se lhe opuseram foram, automaticamente, enquadrados do outro lado.

E a direita, lá em 2014-2015, achou isso uma boa, uma vez que só uma união de grupos e personagens tão antagônicos como Alexandre Frota e Dom Bertrand poderia redundar numa vitória ante a quimera esquerdista. E os esquerdistas, por sua vez, apostando no poder da hegemonia, acreditaram que rotular todo mundo de direita – que, segundo eles, sugere a imagem de ricos, brancos, autoritários, militares, cristãos intolerantes etc. – seria suficiente para criar um invencível asco popular e, por isso, bastante para impedir qualquer projeto mais consistente dos seus adversários.

Passada, pois, a tensão eleitoral, e vencido, pelo menos por ora, o inimigo comum – o PT concreto, o Lula em carne e osso – tanto a esquerda largou a rotulagem, aceitando, recentemente, falar em liberais, conservadores e extremistas, quanto a direita, às bordoadas, foi se dando conta de que, de fato, não existia direita alguma – pelo menos não como se desenhou nos movimentos Fora, Dilma, Pró-Lava-Jato, e assim por diante.

Decorre daí que com o passar desse primeiro ano de governo anti-esquerdista os grupos enquadrados à direita foram se distinguindo e agora já ganharam nitidez suficiente para que possam ser apontados como sujeitos autônomos e até opostos.

 

Os liberais

Há, de um lado, e com melhor rosto, mais limpo, e melhor representado na cena pública, os liberais.

Nesse grupo, que também não é uniforme, temos desde figuras anarco-capitalistas como um Raphael Lima do canal Ideias Radicais até os chamados liberais-conservadores (ou conservadores de boa estirpe, como eles se autodenominam) na linha de Rodrigo Constantino, Francisco Razzo, Paulo Cruz, Alexandre Borges, Carlos Andreazza, Felipe Moura Brasil, Pondé, Lobão, MBL, Luciano Ayan.

Os liberais, apelando a uma verve pacificadora, anti-extremista, racionalista e cética, foram melhores aceitos na roda de samba da esquerda moderada. Ali, percebeu-se – e, com razão, pois é uma constante histórica –, há uma certa linha de convergência, de debate possível, de conciliação. Há, nesse bolero de rosto colado, uma intercomunicação de valores. Há, por fim, um namoro inconfesso, como o de Varvara e Stepan.

Esse grupo de liberais foi se conformando pelo afastamento da amalgama mais conservadora que, desde o oba-oba de 2013 emergiu em torno do filósofo Olavo de Carvalho. Todos os liberais (excetuando, talvez, os libertários), uns mais outros menos, são tributários do olavismo, mesmo que meramente como críticos (como no caso do Constantino).

No entretanto, conforme os grupos iam se ajuntando em vias de ações políticas conflitantes, como a Marcha para Brasília do MBL que se chocou com as propostas do próprio Olavo de Carvalho, a coisa foi decantando e, se de um lado formou-se esse corpo acabado e bem vestido de terno e gravata do liberalismo, do outro, ficou a estrovenga maltrapilha que, grosso modo, pode se chamar de conservadores.

 

Os conservadores

Deste grupo, o que temos é uma pluralidade ainda mais variegada de perspectivas, ambições, finalidades. Há, nesse polo, militaristas, evangélicos, católicos tradicionalistas, monarquistas. Aqui, mesmo o símbolo unificante do Bolsonaro, ou do bolsonarismo, é mais ou menos frágil. Os religiosos não concordam com a postura ecumênica do mandatário, os militaristas queriam mesmo é que o Mourão estivesse com a caneta e a faixa, os monarquistas não perdem a chance de culpar o republicanismo, aderido por Jair, como a causa de todos os males. É uma bagunça.

E mesmo pelas vias filosóficas só se acha um consenso muito tosco. Se tomarmos a filosofia política e cultural do Olavo como centro em torno do qual gravitam uma uma série de círculos concêntricos do que poderíamos categorizar como “os conservadores”, veríamos que só um grupo muito reduzido de alunos segue realmente a sua perspectiva, que só é ensinada no Seminário de Filosofia, e nos Cursos de Guerra Cultural e de Ciência Política. Depois, teríamos os leitores de seus livros, sobretudo os mais populares como O Mínimo e O Imbecil Coletivo; em seguida, apareceriam os que se formaram vendo seus vídeos recortados no YouTube; por fim, os olavetes de Facebook e Twitter. E do círculo mais próximo ao mais afastado a mensagem vai se dissipando e se confundindo como em qualquer telefone-sem-fio. No fim, sobra nada mais que umas críticas disparatadas, porque destituídas de justificação profunda, à esquerda, à escola de Frankfurt, ao marxismo cultural, ao Foro de São Paulo, à mídia. É mais ou menos esse pelo de gato velho que amarra a direita conservadora.

Este grupo, em relação à esquerda moderada e aos liberais, é isolado. Porém, é o que tem maior adesão popular, vide o sucesso de Youtubers como Nando Moura (que já está assumindo uma linha de discurso que o identifica com os liberais), Bernardo Kuster, Os Brasileirinhos, Lilo Volg e Daniel López; e de canais de informação como o Terça Livre, Renova Mídia, República de Curitiba, Leandro Ruschel e tantos outros.

 

Resumo da ópera

Temos então um cenário de direita fragmentada em que os conservadores, manquitolando e aos solavancos, mantêm um certo alinhamento com a base popular que elegeu Bolsonaro, e os liberais, em outra vibe, seguindo num jantar elegante, democrático e de direito, com a esquerda moderada, pais e tutores dos Boulos, D’Ávilas e Haddads da vida.

Claro que isso não é ruim em si mesmo. É evidente e até natural a existência de grupos políticos que discutam meios diferentes de chegarmos a uma melhor configuração política. Porém, se a narrativa dostoievskiana e a análise platônica estiverem corretas, o Brasil mal saiu de uma tirania ladra e sanguinolenta, e já começa, pela via liberal, a se encaminhar à próxima.

Veja que em um ano de Bolsonaro os liberais quase todos, e por motivos diversos, viraram oposição – se não do governo no geral, já que temos ali um representante da facção na figura do Paulo Guedes, pelo menos da figura do Bolsonaro, única força política com fôlego para peitar os radicais de esquerda.

Ou seja, se a banda continuar tocando assim, é muito provável que toda essa mídia (Jovem Pan, Gazeta do Povo, Antagonista-Crusoé) e a nova intelectualidade liberal tenha um nome alternativo já para 2022. Um nome mais ao seu gosto, como um Dória, um Huck, ou algo que o valha. Um nome, no fim das contas, como Stepan, capaz de embalar o berço e dar de mamar aos pequenos demônios que, em crescidos, devorarão a todos, incluindo seus pais e mantenedores.

 

[1] Mitigado porque já afastado dos ideais de governo do sábio ou dos nobres (aristocracia) em sentido estrito. O timocrata é, por essa razão, o governo do nobre-militar já corrompido, já apartado do mito fundador da sociedade, e em vias de ceder a projetos políticos particulares, embora, em alguma medida, ainda seja conservador.

 

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