Eutanásia e a cultura da morte: tema pede atenção de médicos e defensores da vida

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Foto: Flickr de Anthony Quiroz Heredia (CC-BY-NC-2.0)
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O debate sobre eutanásia parece navegar na escuridão no Brasil. O tema é parte da cultura da morte e se utiliza de sentimentalismo e de uma falsa piedade para defender que se ponha fim a uma vida humana de forma artificial, ou seja, por morte provocada.

Não raro, quando se discute a legalização do aborto os defensores da prática evocam o tema da eutanásia. O comportamento no debate, por si, da parte de defensores do aborto, prova que na temática do aborto estamos sim falando em matar uma pessoa humana, ainda que tentem negar. Mas o abortista gosta de utilizar esse estratagema porque crê, corretamente, que o debatedor pró-vida terá mais dificuldade em argumentar contra a eutanásia do que argumentar contra o aborto – isso se deve, em parte, porque a eutanásia é pouco estudada e debatida no Brasil por parte de defensores da vida.

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Ainda na analogia com o tema do aborto, vimos que os defensores da vida só começaram a responder aos argumentos dos abortistas quando a ameaça se tornou evidente e gravíssima. Isso deu décadas de tranquilidade para os abortistas trabalharem sem serem percebidos. No tema da eutanásia e no seu Upgrade, que é o suicídio assistido, os defensores da morte ainda parecem viver essa fase em que poucos são os que apresentam obstáculos. Prova disso é que hoje se discute explicitar o direito à vida com inclusão dos termos “desde a concepção”, e (quase) ninguém reivindica os termos “até a morte natural”, no debate legislativo.

Quais são as motivações?

Na história recente o regime nazista também foi pioneiros da eutanásia e entre 1939 e 1941 mais de 70 mil vidas foram ceifadas por serem consideradas “existência sem valor vital”, conforme destacam os autos do processo de Nuremberg[1].  Na motivação nazista pesava fortemente o racismo e o estatismo absolutista, onde era feito o “mais cínico cálculo de diminuição das despesas do Estado com a finalidade de canalizar os recursos econômicos para as despesas da guerra”[2]

As motivações dos defensores da eutanásia atualmente oscilam entre um falso senso de piedade e uma visão utilitarista da vida, com uma ideia de “vida digna”, em oposição ao valor inviolável da vida humana ou a “dignidade intrínseca” da pessoa humana – o que devia ser pressuposto básicos dos direitos humanos. Porém, ainda se vê, infelizmente, uma grande motivação eugênica e de higiene social. Defensores da eutanásia apresentam argumentos com aparência de piedade diante do sofrimento de enfermos terminais, mas as preocupações utilitaristas pelo fato dos enfermos gerarem despesas e não produzirem nem gozarem prazeres são perceptíveis.

Elio Sgreccia destaca que a prática da eutanásia foi proposta mais recentemente na Inglaterra por médicos, com objetivo de evitar despesas e riscos de diagnóstico genético pré-natal para os recém-nascidos defeituosos. Na França, “A Association pour la prévention de l’enfance handicapée (APEH) apresentou uma proposta de lei na qual” o artigo primeiro considera que o médico “não cometerá nem crime nem delito se se abster de administrar a um recém-nascido de três dias os cuidados necessários à sua sobrevivência quando a criança apresentar uma enfermidade incurável, tal que faça prever que jamais poderá ter uma vida digna de ser vivida”.[3] De novo, a ideia de “vida digna”.

O componente filosófico e antropológico não pode ser negligenciado quando se fala na defesa da eutanásia. A visão de mundo e a própria existência do ser humano é regida pela ótica do prazer: fugir da dor e buscar o prazer. Nessa lógica quase erótica onde os sentidos corporais se sobrepõem à razão o que importa é a fuga da dor e a busca do prazer e isso vale até mesmo diante da morte, por mais que ninguém saiba dizer como é a experiência de morrer. Defende-se para o outro o abandono de própria existência para que ele vá para um destino incerto.

A eutanásia atinge não apenas os idosos que poderiam, em tese, ter seu horizonte de vida melhor estimado diante de uma doença terminal. O caso do menino Charlie Gard, em 2016, mostra o tamanho da perversidade dessa ideologia. O bebê tinha apoio internacional para ser transferido e receber tratamento experimental para sua doença rara – algo que poderia dar espaço para grandes avanços científicos. Os pais de Charlie, o casal Chris Gard e Connie Yates, discordavam radicalmente da decisão judicial de matar o menino por meio da eutanásia e queriam transferi-lo para tentar o tratamento experimental. Mesmo assim, imperou a decisão estatal de pôr fim à vida do garoto. A justiça decidiu pelo fim da vida do garoto em detrimento da vontade da família, mesmo diante de possibilidade de novas tentativas.

Em um mundo cientificista onde só vale o que é demonstrado experimentalmente e o progresso técnico têm valor praticamente amoral apenas pelo seu valor de utilidade, os defensores da eutanásia são os primeiros que abandonam a busca pelo progresso científico na medicina diante de doenças de cura ou tratamento pouco conhecidos. É o expediente tradicional das ideologias modernas e da cultura da morte: opõem-se a qualquer aspecto transcendente exaltando a ciência, mas para atender aos seus interesses ideológicos, esquecem-se da ciência.


Notas:

[1] Sgreccia, Elio. Manual de Bioética. Fundamentos e ética biomédica, Vol 1. Pág 699.

[2] Ibidem, pág. 699.

[3] Ibidem, pág 703.