Guerra cultural e a nova literatura brasileira

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O ano de 2019 é bastante útil para a compreensão de que a discussão política corriqueira, a fofocaiada do dia-a-dia, é bolha de sabão.

Puxe aí na memória o tanto de eventos em que os internautas politicamente ativos nos engajamos, de janeiro pra cá. São diversos nomes e situações, hoje apenas vultos num recôndito frio da memória, pelos quais nos desdobramos, como se coisa de importância última. E todos gastamos tags e textões, e puxamos discussão com amigos e familiares, e nos angustiamos, perdemos cabelo, ganhamos rugas. E ficamos até tarde da noite dando F5 no computador, ansiosos pelo desdobramento. E deixamos de comer, deixamos de namorar, deixamos de rezar.

Daí, no dia seguinte, como que por mágica, o assunto, assim, sem mais, estava totalmente dissipado nas brumas do tempo. Já era passado remoto. Pois o nome em questão ia ficando fosco, confuso, obnubilado; o fato, que parecia da magnitude de Poitiers ou de Lepanto, ia aparecendo irrelevante, pardacento. Até que, num repente: “BOMBA!”. “Fulano fez isso”; “sicrano indicou beltrano”; “o mato pegou fogo”; “acharam coca no avião”; “vazou o áudio, a República caiu”.

Assim, dia após dia, o foco de atenção ia oscilando como a luz de um farol marítimo. E a cada novo centro luminoso, a coisa novamente ia aparecendo fatal, e de novo íamos ao arranca-rabo virtual gastar nossa energia, nossos cabelos, nossa ponte de safena, nossa sanidade.

Claro que há nisso alguma coisa boa. Essas pessoas que estão altamente sensíveis ao mais mínimo lance da política cotidiana são os enganados de décadas, o povão que já não bota fé na classe política e que, portanto, quer se postar como o guardião da coisa pública. E isso é bom. Tanto que, em larga medida, foi esse novo espírito que virou o quadro político colapsado pela era PT.

Porém, esses esforços da luta comezinha têm validade, e diminuta. Não há possibilidade de essa massa se manter igualmente atenta e com esse mesmo furor ao longo, por exemplo, da próxima década. Esse trabalho de formiguinha é importantíssimo, porém, extenuante, chato, e o retorno é em migalhas.

É nesse sentido que o filósofo Olavo de Carvalho assevera que a verdadeira guerra deve ser travada não na luta-livre do octógono político, mas no campo da alta cultura. E isto pelo motivo de que é nas realizações artísticas mais relevantes que se cristalizam as imagens da comunidade humana e das almas individuais que servirão de ponto de referência e critério de medida a todo o povo, por muitos anos, inclusive para conseguir pensar seus arranjos políticos.

Como disse Hugo Hofmannsthal:

“Nada está na política de um país que não esteja primeiro na sua literatura.”

 

E a esquerda, contra quem o exército virtual se levanta dia e noite, sabe disso. Todo o pensamento nacional foi sendo moldado, ao longo das últimas décadas, para aceitar um conjunto de valores e expectativas sociais que convergem com a agenda esquerdista. Todo mundo foi formado dentro dessa cosmovisão e só muito lenta e traumaticamente conseguem superá-la. Por isso, e só por isso o PT chegou e se manteve por tanto tempo no poder, livre de oposições significativas.

Eis aí um trabalho bem feito, eficaz.

É aqui que entra a atividade, tanto menos badalada quanto mais importante, de toda uma geração de novos escritores que está surgindo com essa missão de restaurar a imaginação nacional corrompida pela longa inoculação intravenosa de ideologia revolucionária.

Pois, nessa cena literária, já se conta uma boa soma de poetas, como o Érico Nogueira, a Lorena Cutlak, o Bernardo Souto e o Vicente Pessôa; e alguns prosadores, como o Luiz Cezar de Araújo, o Yuri Vieira, o Paulo Briguet e o Diogo Fontana.

Sobre este último, o Diogo, vale ressaltar o valioso trabalho que ele tem feito com sua editora, a Danúbio, de dar não só espaço, mas toda uma assistência editorial a novos talentos literários. Eu mesmo, inclusive, a seu convite, estou com meu livro de estreia, uma novela, já no prelo.

Pois toda essa introdução foi para falar de um podcast muito interessante feito pelo pessoal do Admirável Cast Novo (Paulo Briguet, Silvo Grimaldo e Bernardo Kuster, no caso, substituído pela Dr. Cláudia Piovezan) sobre o livro de estreia desse mesmo Diogo Fontana, A Exemplar Família de Itamar Halbmann, de 2018.

Na conversa, o grupo faz um exercício de crítica literária analisando, por um lado, a importância sociocultural da obra, e por outro, os elementos da narrativa em si mesmos, os seus dramas, a riqueza de situações representativas de tipos humanos tão presentes no nosso cotidiano (o novo-rico petista), as questões estilísticas, as influências do autor etc.

Desse modo, o podcast tem dupla importância na medida que traz a um público maior, este mesmo entorpecido pelo falatório das arengas políticas, um conteúdo de peso, consistente e duradouro, e, também, ao comentar a obra com acuro e seriedade, incentiva iniciativas semelhantes, demonstrando, na prática, que nem só de bate-boca vivem as redes sociais.

Segue, pois, o link da conversa “Vida e morte de um figurão petista” armazenada no Spotify:

 

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Recomendo também o vídeo do canal brasileirinhos, porradaria cultural com josias Teófilo sensacional! Totalmente dentro desse assunto