O circo é esquerdista; a palhaçada é da direita

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O expediente típico do direitista safra 2013 é, primeiro, demonizar a esquerda, e, em seguida, gastar toda a energia em se mostrar, não raro para gente da própria esquerda, o simétrico oposto daqueles diabos. E nisso há, pelo menos, dois problemas bastante sensíveis.

Primeiro que essa demonização obtusa e simplificante faz com que a esquerda, que é o grupo político mais bem-sucedido dos últimos séculos, deixe de ser objeto de análise – do qual se poderia extrair conhecimentos de ação política valiosíssimos, porque eficazes –, e passe a ser espantalho ou João-Bobo para quem queira subir na vida dizendo o óbvio a uma plateia pouco exigente.

Isto, por si, já um grande problema. E é tanto maior na medida que atesta o segundo, que é o fato de a atual direita, conservadora ou liberal, via de regra, ainda estar mentalmente condicionada pelas premissas dos canhotos.

Vejamos. O direitista brasileiro, surgindo dentro de um quadro de hegemonia cultural de esquerda, começa sempre na defensiva, partindo sempre de uma tentativa de se mostrar menos perverso e autoritário do que os comunistas os pintaram. É como se fossem obrigados a dizer:

“Sou de direita, mas não sou extremista. Extremista é o esquerdista, e eu sou seu simétrico oposto”.

Daí que o direitista vá formando sua autoimagem política como um sujeito crítico, cético, prudente, racionalista, isento e liberal. Tudo que ele vê como deficiências naqueles que são a um tempo seus inimigos e seu ponto de referência.

O problema, e aqui está a questão da hegemonia, é que essas categorias preconizadas pelo direitista ideal são próprias do iluminismo, a ponta-de-lança do movimento revolucionário contemporâneo. Ou seja, o direitista, querendo sair bonito na foto da Ágora, vai vestindo, como se traje de gala, a roupa de palhaço delicadamente fiada e adornada pela própria esquerda.

O direitista isento é o inimigo perfeito da esquerda, pois, no fundo, sua própria criação.

Para melhor ilustrar a questão, vale a leitura do discurso de Alexander Soljenítsin, em Havard, no ano de 1978.

Ali, o grande escritor russo, que viveu na pele os horrores mais lancinantes do comunismo, foi à tribuna da maior universidade americana escancarar a inocência ocidental diante do inimigo soviético.

Hoje, a sociedade ocidental revelou a desigualdade entre a liberdade para as boas ações e a liberdade para as más ações. Um estadista que quer alcançar algo altamente construtivo para seu país tem que se mover cautelosamente e timidamente. Milhares de apressados (e irresponsáveis) críticos se agarram nele em todos os tempos. Ele é constantemente rejeitado pelo parlamento e pela imprensa. Ele tem que provar que cada passo é bem fundamentado e absolutamente perfeito. Certamente, uma extraordinária e verdadeiramente grande pessoa que tem iniciativas incomuns e inesperadas em mente não tem nenhuma chance de se afirmar. Dezenas de armadilhas serão armadas para ele desde o início. Assim, a mediocridade triunfa sob a aparência de restrições democráticas.

 

Quer dizer, o direitista, ou o anticomunista ocidental padrão, só aceita o combate político contra os radicais de extrema-esqueda, se travado dentro das regras castradoras ardilosamente criadas pelos próprios inimigos.

É isso que aconteceu, por exemplo, com o youtuber Nando Moura. Tendo vestido a carapaça do conservador virtuoso, daquele que não defende políticos concretos – os homens com a faca e o queijo nas mãos –, mas tão somente valores genéricos e abstratos, tendo vestido essa fantasia, foi obrigado a sustentar sua posição vacilante abrindo briga com o único político que, em décadas, conseguiu furar o paredão comunista e, praticamente sozinho, impediu, ou pelo menos refreou, o paulatino processo de venezuelização do país – conforme o próprio Moura cansou de alardear no seu canal.

O Nando fez isso, dentre outras coisas, pois foi entrando em narrativas e sínteses apressadas sobre acontecimentos diários sem a capacidade de escapar a certas premissas definidas pelo consenso jornalístico – dos esquerdistas. Com efeito, esses elementos prenderam-no em alternativas falsas, erros de avaliação, do peso e consequências de certas ações etc. Em suma, o sujeito se perdeu no próprio personagem.

E com isso saiu na capa de tudo quanto é página de extrema-esquerda.

O mesmo aconteceu com o humorista Danilo Gentili, com o cantor Lobão.

No fim, todos os direitistas que têm conseguido prosperar no debate público, só chegaram a esse patamar, pois, em última análise, são peças até necessárias à perene dialética esquerdista. Por isso mesmo, é bem possível que, em pouco tempo, toda essa turma esteja engolfada naquele espírito pusilânime proto-tucano; daí serão dignamente chamados, pela mídia tradicional, de “a direita”; e, por corolário, empurrarão os direitistas-não-conformados, escada a baixo, ao calabouço do extremismo – do qual só sairão se aceitarem pedir perdão e depois de passarem pelo banho de loja da Le Gauche Magazin.

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Dalton Telli
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Dalton Telli

Não gostei.

Carlos
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Carlos

Porquê?

Carlos
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Carlos

Acho certíssimo. E por não haver militância, logo, os debates internos, somos obrigados a ver ao vivo o que poderia ser resolvido no quintal de casa, na porrada franca.

mantoniogs@gmail.com
Membro

Um bom retrato da “nova direita”, em especial a direita de internete…

Calvin
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Calvin

Acho as críticas do Nando válidas, pois compartilho do mesmo sentimento. Mas estamos aí, ainda torço pelo governo e por Bolsonaro. Mas não posso fechar os olhos e dizer que seus erros são acertos.

Almanakut Brasil
Visitante
Almanakut Brasil

A direita é muito tolerante.