A lógica e a loucura dos abortistas

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“Há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes”.

(Albert Camus, O Homem Revoltado)

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O mundo atual é guiado pelos loucos de que fala Chesterton na sua Ortodoxia. E o louco chestertoniano não é o bom e velho Napoleão de manicômio ou o São João Batista da praça, essas figuras pitorescas e via de regra inofensivas que, no máximo, nos fazem pena. Não. O louco do Chesterton é o lógico.

E lógico não no sentido daquele que acredita no poder da razão. A razão, diria Aristóteles, é iluminada por Deus; ela nos inclina ou nos arrasta a Ele; e, através dela, e só através dela, é que O reconhecemos como a fonte inesgotável de todo o conhecimento – ou de tudo que é conhecível.

A lógica moderna, por outro lado, e é essa de que falaremos, é a lógica que se fecha em si mesma, como se num circuito fechado que não vê nada fora de si, e não reconhece algo que lhe seja anterior e que, portanto, lhe sirva de base.

O lógico, diz Chesterton, “procura pôr os céus dentro de sua cabeça”. Daí que o lógico de hoje seja um louco, uma vez que,

“o louco não é um homem que perdeu a razão (a lógica). O louco é um homem que perdeu tudo exceto a razão”.

Quer dizer, o lógico moderno é o fulano que reduz a realidade a um círculo causal perfeitamente explicativo de tudo o que aconteceu e de tudo que há de vir. E por isso ele acaba cindindo com o mundo real, com as tensões reais, com as percepções reais e com os sentimentos humanos reais, como a caridade, o arrependimento, o assombro. Ele vive, portanto, num mundo maravilhosamente lógico, coerente, agradável até, mas que só existe na sua cabecinha. É um perfeito louco.

“O louco está na limpa e bem iluminada prisão de uma ideia só: é afiado num só doloroso ponto. Está desprovido da sadia hesitação e sadia complexidade”.

Quando entramos nas redes sociais vemos toda uma variedade de louco dessa categoria, quer dizer, de loucos lógicos. Há, por exemplo, aqueles que vem à público com jaleco de cientista, cabelo desgrenhado e lotado de pastas e papéis nas mãos, dizendo que é perfeitamente natural, e mesmo nobre, matarmos as criancinhas antes que elas nasçam. E esse sujeito, lógico que só, tem todo um sistema explicativo para sua posição. Parte de premissas convincentes, colhe evidências, sabe articular suas ideias numa boa lábia academicista, e tem até uma bela retórica melodramática. Tudo argumento de quem ficou louco – de tão lógico.

Voltando, pois, ao início, vemos que Camus estava certo. Os crimes de nossos tempos são crimes de lógica – ou de doidos. Todo o genocídio contemporâneo – incluindo o abortismo da revista Az Mina e congêneres – , é justificado por uma suntuosa filosofia e por intrincadas explicações científicas. Dito de outro modo, já faz séculos que a morte de contingentes cada vez maiores de seres humanos é lentamente planejada por senhores respeitáveis de óculos e bigode que, enquanto decidem o número de cadáveres da próxima década, leem Nietzsche, ouvem Beethoven, bebem whiskhy e tragam charuto – cubano.

Mas pode ser que alguém me retruque alegando que nós, os cristãos, é que vivemos em um sistema fechado, e que somos mais loucos e mais letais que os lógicos.

Pode ser. Porém, acontece que o grande problema do cristianismo, para o crente, é o fato de ele nos exigir a fé; ou, de outro modo, de nos deixar sem um bocado de certezas.

No Grande Inquisidor, de Dostoiévski, o homem que interroga Cristo, pois o Deus voltara precocemente à Terra, é bastante lógico – quer dizer, é um religioso louco, como um comunista ou um ambientalista. E toda a argumentação dele se baseia nas negações de Jesus ao Tentador do Deserto.

Jesus, diz o Evangelho, estava há 40 dias no meio do nada, já faminto e cansado. Daí lhe apareceu um Satanás e o atentou. Queria o diabo que Cristo se revelasse Deus, em todo o seu Poder e Majestade, e que dominasse a Terra, alimentasse toda a gente, tomasse os impérios de assalto, e subjugasse os descrentes pela magnificência da sua Glória. E Cristo mandou o demônio ao inferno.

Era essa negação de Cristo que consternava o Inquisidor. Tivesse Ele aceitado as sugestões do Tentador, arguia o homem, a humanidade não teria dúvidas sobre a quem adorar, e então não haveria guerras, nem dissenções, nem fome, nem perseguições. Com efeito, a Paz reinaria eternamente e todos se curvariam a Jesus.

Porém, e o Inquisidor sabia disso, se Cristo caísse na Tentação, perderíamos a nossa liberdade, e, por consequência, a nossa humanidade. No fim, teríamos uma vida parecida com a do lógico, mas deixaríamos de ser semelhantes a Deus. Cristo resistiu ao Tentador para que continuássemos sendo homens – e homens sãos.

Quer dizer, o cristão, para ser gente como Deus o concebeu, deve estar aberto ao real, livre para crer ou não crer, para duvidar, para cair em tentação e para buscar a redenção, tudo aos trambolhões, aos solavancos. E eis que a vida perde toda a conotação de círculo fechado, de manual; e eis que possamos considerar a vida cristã como qualquer coisa, menos como perfeitamente lógica. Por isso não é louca.

Agora, o deus dessa gente que ensina aborto na internet é um deus lógico-louco, e exige comportamento igual dos seus devotos.

O fato é que essa turma hiper-modernizada das redações, do design, da propaganda, essa gente que é engajada em tudo e é toda orgulhosa de sua lógica superior, no final das contas deposita uma fé calorosa e cega em senhores octogenário, já de testículos murchos e cabelo ralo, que moram nalgum palacete marmóreo todo entalhado e pintado no mais exigente rococó, posicionado estrategicamente no topo de alguma montanha alpina, longe suficiente do alarido social para não ganhar mais rugas, e perto o suficiente para aferir a olho a obediência das suas crias.

Em outras palavras, o abortista que ensina o homicídio de crianças aos quatro ventos é um assassino-lógico – portanto louco – cuja vida é sutil ou ostensivamente influenciada, quando não guiada, pelas mãos enrugadas das figuras terreno-olímpicas que lhes pagam os honorários, como o George Soros.

É essa gente que governa o nosso mundo.