Poder do jornalismo ainda é subestimado por setores conservadores

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Fernando Collor foi derrubado com a ajuda da mídia mesmo tendo em suas mãos um canal que chegou a bater a Globo em audiência. A Rede OM, que hoje pertence à TV Gazeta, era de propriedade do presidente do PRN, partido de Collor, até o fim abrupto do seu governo. O canal chegou a ter Galvão Bueno como principal comentarista e prometia “trazer o Brasil que a mídia não conta”. Mesmo assim, Collor caiu. E agora, o que temos?

Poucos conservadores admitem, mas uma única manchete da mídia de esquerda tem o poder de irritar um direitista. Não fosse o excelente senso de humor desenvolvido ao longo dos anos de hegemonia esquerdista, não seria tão fácil suportar. Mitadas, mimimis, “chora mais”, opressão, extrema-imprensa e outros subterfúgios transformam a condição da direita em algo aparentemente triunfante, fazendo-a muitas vezes sair por cima. E isso é o que salva. O brasileiro é zoeiro por natureza e isso por vezes o protege da humilhação, mas não o salva por completo.

O problema é que esses subterfúgios, essas saídas criativas, acabam fazendo com que direitistas se esqueçam de quem manda de fato no imaginário jornalístico, político e cultural, no Brasil, muito embora a direita tenha conseguido eleger um presidente, o que não é pouco. Mas indica apenas superioridade numérica que pode incomodar nas redes sociais. Mas o poder dos definidores dos conceitos e das imagens mentais a serem usadas em instâncias decisórias não pode ser subestimado.

As manchetes de jornais da mídia de esquerda são ricos em estereótipos, imagens resumidas de situações que visam ilustrar narrativas preestabelecidas, recebidas nas universidades ou de blogs influentes, nacionais e internacionais. A direita tem Olavo de Carvalho, que explicou os blocos de poder, as estratégias e exemplificou perfeitamente como agir. Mas isso pode não ser suficiente quando a imprensa mantém o poder da seleção de fatos e personagens com os quais irá definir a própria direita. Personagens caricatos muitas vezes não precisam ser propriamente inventados e isso é o que muitos preferem esquecer quando um jornalista da Folha começa a procurá-los para uma entrevista. Pode ser você a próxima caricatura que vai enriquecer o estereótipo da direita. Pense nisso.

Desde que comecei nesse negócio de “movimento conservador”, há mais de dez anos, já vi surgirem pretensos líderes, vozes corajosas, personalidades marcantes, ícones do conservadorismo, assim como existem hoje. Alguns daqueles do passado hoje engrossam as fileiras do anti-olavismo ou mesmo da isentosfera, resultado de um ego excessivamente inflado por auto-sugestões ou sugestões do entorno que não o ajudaram, além da sedução pelo jornalismo mainstream, coisa mais poderosa que as tentações do demônio (se é que não o representam). Vi um rapaz bem intencionado se entusiasmar em dar entrevistas sem nunca perceber que o jornalista o estava zoando de maneira épica. “Mídia manipuladora”, dizia depois. Mas não era o caso. O jornalista apenas precisou descrever o pobre coitado em sua síntese confusa e estava feita a caricatura. Era um conservador dos primeiros tempos. Podemos não acreditar, mas ainda estamos nos primeiros tempos e o ridículo pode ser qualquer um de nós. Então que fazer?

A esquerda possui um poderoso sistema de mídia. Com isso quero dizer uma poderosa estrutura fornecedora de critérios e eixos de narrativa. Não temos nada disso e sequer sabemos do que se trata. A versão conservadora dessa estrutura está em Olavo de Carvalho, mas quem garante quantos e quais conservadores o entendem perfeitamente? Olavo apresenta uma imensa quantidade de conhecimento sobre a esquerda e a estrutura social conhecida por ela, na qual age. Esse conhecimento aparece compactado em suas próprias reflexões e sugestões de leituras. Quem a descompactará e a converterá em guias de ação? Naturalmente os alunos que se dedicarem a isso por anos. Tive oportunidade de estudar mais a fundo o assunto quando integrei, no Curso Online de Filosofia do prof. Olavo, o Núcleo de Estudos Estratégicos, no qual estudamos em conjunto por cerca de dois anos. Posso dizer que os conhecimentos necessários não são poucos e nem podem ser adquiridos em questão de algumas semanas. Mas é preciso começar.

Já para a esquerda, os critérios e eixos narrativos estão presentes o tempo todo. O longo processo intelectual de debates e articulação com militâncias foi fértil por muito tempo e obteve frutos, como podemos ver. Os eixos narrativos estão disponíveis e facilmente identificáveis pela militância, que não precisa mais o tempo todo perguntar a alguém o que fazer. E eles são perceptíveis por qualquer ativista pelo simples fato de que nenhum deles quer ser a voz da salvação ou ter o rosto estampado numa revista como símbolo das suas ideias, mas consegue encarnar em ações uma trajetória que foi feita pelos estudos. Eles seguem uma estrutura que está acima deles porque acreditam que a realização de suas utopias não se dará durante o tempo de sua vida, além do fato de que a própria luta os fortalece e satisfaz. Eles, que são materialistas, fazem isso. E o conservador, que diz falar em nome de valores transcendentes, prefere direcionar suas ações ao imediato, à defesa de “ismos” (cristianismos, conservadorismos, monarquismos, intervencionismos, liberalismos, tradicionalismos), palavras que não são apenas vazias para a esquerda, mas até para os que as portam em estandartes.

A tarefa da direita deveria ser um urgente exame de consciência e enumerar suas certezas e dúvidas, elegendo as primeiras como prioridades. O jornalismo praticado pela esquerda não é puro ativismo. Há nele muita técnica e um bocado de trabalho, dedicação e estudo. A direita apenas estuda. Estuda e grita no Twitter ou nas ruas. Colocou um presidente em Brasília assim. Mas agora precisa mantê-lo no poder.

A direita continuará sendo vítima do jornalismo que subestimou, porque acha que ele é feito apenas com o mesmo ativismo que a direita faz nas redes sociais, só que com dinheiro. Não é. Há muito mais do que isso e enquanto não houver mão-de-obra para o jornalismo verdadeiramente independente, sofrerá a maior das derrotas. A derrota da história pelas mãos dos que contam a história.

 

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CíceroCalvinAlmanakut Brasil Recent comment authors
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Jornalismo canalha, feito por militantes formados em antros universitários, à base de orgias, drogas e bebedeiras, é subestimado pela opinião pública.

E quando o dinheiro desviado da sociedade esteve envolvido, perde também quem o acompanha e patrocina.

Calvin
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Calvin

Eu, que não sou jornalista, o que eu posso fazer?

Cícero
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Cícero

Muita calma nessa hora, por favor!
A imprensa tradicional está subestimando a população esclarecida, o poder das redes sociais e os novos órgãos de imprensa, tal como este com quem converso.