Sebastian Piñera não pode ser considerado pró-vida, diz ativista católico chileno

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Foto: Aton
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O presidente chileno Sebastián Piñera representou no país um retorno da direita após décadas de governos de esquerda. Mas as pautas culturais da direita, como a defesa da vida e da família natural, não contam com grande participação de Piñera. Para o crescente eleitorado conservador do Chile, Piñera parece não representar mais a expectativa de uma real resistência ao avanço da esquerda com suas agendas internacionais.

Embora a imprensa brasileira tenha tentado passar a ideia de um afastamento entre Bolsonaro e a direita chilena, após o episódio das críticas a Michelle Bachelet, a verdade é que essa direita que cresce em todo o continente não vem sendo bem representada, principalmente pela crescente preocupação com temas como defesa da família e o aborto, tidos como periféricos pelos ativistas da grande mídia. Neste aspecto, o deputado José Antonio Kast vem crescendo entre cristãos conservadores e já foi apontado como segundo colocado em pesquisa divulgada pelo jornal chileno La Tercera.

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Na percepção do ativista pró-vida Juan Antonio Montes, diretor dos movimentos Acción Familia e Credo Chile, Piñera não pode ser considerado um conservador pró-vida. Apesar de ter prometido vetar qualquer projeto abortista em seu primeiro mandato, neste segundo mandato nada fez contra as leis aprovadas por Bachelet.

Juan Antonio Montes Vara, diretor de Acción Familia e Credo Chile.

Em entrevista exclusiva, Montes falou sobre as peculiaridades da luta pela vida no Chile e elogia a posição do atual governo brasileiro sobre esse tema, que considera decisiva como influência na América Latina, dada a importância do Brasil. Com uma atuação exclusiva entre as famílias e na opinião pública, Montes relativiza a importância de políticos que defendam a família e a vida, já que a sem uma sociedade esclarecida a esse respeito, um político pouco poderá fazer. Além do tema do aborto e Ideologia de Gênero, Montes também opinou sobre a polêmica envolvendo declarações de Bolsonaro sobre Bachelet e a referência ao governo de Salvador Allende.

Leia abaixo a entrevista

Qual a situação legislativa da luta pela vida dos nascituros no Chile?
A investida legislativa contra a família cristã e o direito de nascer tem uma frente de parlamentares importante, em geral agrupados nos partidos políticos da esquerda, mas em certas iniciativas – como no caso da união homossexual – encontram respaldo de parlamentares governistas. Os projetos que se discutem nesta matéria no Congresso são muitos. Todos eles fazem parte de uma pressão mundial para a destruição do conceito católico de família e a aceitação do “amor livre” em suas mais extremas consequências.

Considerado um presidente de direita, Sebastián Piñera pode ser visto, neste caso, um conservador pró-vida?

Decididamente não. Ele faz questão de se distanciar ao máximo possível de tudo o que seja “conservador”. Em matéria de posições pró-vida, embora em seu mandato anterior tenha declarado que vetaria um projeto de aborto, no mandato atual ele não fez nada para reverter a lei que foi aprovada no mandato da ex-presidente [Michelle] Bachelet. Recentemente, o ministro da justiça declarou que o governo irá “monitorar” o projeto de legalização das uniões homossexuais. O termo é ambíguo, mas de certa forma demonstra que [o governo] não se oporá claramente.

Como o senhor vê a situação do aborto na América Latina e no Brasil?

A situação varia bastante de um país para outro. Por exemplo, na Argentina o projeto de aborto livre que foi apresentado acabou sendo rejeitado no Senado depois de grande pressão de famílias argentinas contrárias à iniciativa. Situação semelhante vive-se no Peru, onde tem havio numerosas manifestações contra a Ideologia de Gênero e a intromissão do estado na educação das crianças nas escolas. No Brasil, percebo que o governo atual se manifesta contrário ao aborto e defensor do direito de nascer. Por sua importância política e econômica, a posição do Brasil em favor da família significa uma decisiva influência no resto do continente. De qualquer forma, está claro que, no entanto, a América Latina continua sendo um continente refratário à “cultura da morte”. A manutenção dessa situação dependerá da firmeza manifestada pelos católicos e todos aqueles que promovem a família desde o ponto de vista da moral cristã.

Quanto à Ideologia de Gênero, há uma preocupação em relação à educação pública ou privada no Chile? 

O governo da presidente Bachelet tentou introduzir essa agenda em toda a educação e em boa medida ela conseguiu. No entanto, uma nefasta reforma educacional imposta por esse governo, que até hoje não consegue resolver os problemas da educação pública, incluindo casos de violência estudantil registrados atualmente, tem impedido que o problema da Ideologia de Gênero ganhe relevância de primeiro plano. Mesmo assim, a ideologia não avança apenas pelas medidas de políticas públicas, mas também, e talvez em maior medida, pelas modas e costumes que os jovens aderem sem a devida resistência dos pais de família. Lamentavelmente, por este ponto de vista, é possível dizer que essa ideologia tem encontrado pouca resistência da maioria das famílias.

Como é a atuação dos movimentos em defesa da vida e da família na política chilena? Há algum respaldo do governo?

Não, nenhum. E nem o exigimos. O que queremos é que o governo, eleito entre outras coisas por sua posição pró-vida, cumpra com seus compromissos sem medos nem negociações. Nós não atuamos na esfera política. Nossa ação é dirigida às famílias e aos indivíduos para que eles pressionem os seus representantes. Nas últimas eleições presidenciais e parlamentares, publicamos e divulgamos em todo o país os critérios dados por vários bispos católicos que recordam que um católico não pode dar o seu voto a candidatos que proponham o aborto ou tenha votado por essas leis iníquas. O resultado foi que muitos candidatos do Partido Democrata Cristão, normalmente votado por pessoas católicas, diminuiu sensivelmente sua representação parlamentar. Da mesma forma, em outras eleições presidenciais temos recordado aos eleitores católicos os princípios “não negociáveis” defendidos pelo Papa Bento XVI, que deixa claro ao público geral que um católico, ao votar em um abortista, está cometendo uma falta grave à coerência da doutrina da fé. 

Há no Chile candidatos ou forças políticas capazes de frear o avanço dessas agendas internacionais?

Acreditamos que mais importante do que a existência de políticos que barrem o avanço dessas agendas anti-família, é que haja um importante setor da opinião nacional consciente dessa necessidade. Se existir isso, um candidato encontrará um público receptivo. Se não existir, de pouco servirá a existência de um candidato pró-família. Nas últimas eleições presidenciais de 2017, apresentou-se um candidato que representou essa corrente e obteve 8% de votos. Foi um número pequeno, mas significativo porque demonstrou que verdadeiramente existe esse setor da opinião nacional que deseja uma defesa da família de forma clara e decidida. Provavelmente, de lá para cá esse setor tenha crescido ainda mais. Tanto é que, nas últimas pesquisas, esse candidato, José Antônio Kast, aparece com a mais alta expectativa de votos dentro do setor da centro-direita do país.

Como o senhor vê as polêmicas geradas pelas declarações do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, contra a ex-presidente Michelle Bachelet? Em sua opinião, houve excesso, como disse a imprensa internacional?

No Chile, não é bem vista a crítica a pessoas individualmente, e menos ainda quando elas são falecidas. Neste sentido, creio que teria sido mais prudente que o presidente Bolsonaro não tivesse se referido ao pai da ex-presidente Bachelet. Quanto à sua crítica ao governo de Allende, ela é compartilhada por boa parte da população nacional e não vejo excesso algum nessas declarações. Compreende-se que o presidente Bolsonaro tenha tido uma reação de mal estar diante das declarações da funcionária da ONU a respeito dos Direitos Humanos no Brasil. No entanto, creio que sempre é bom que os chefes de estado mantenham um alto nível de seu cargo, tanto em questões polêmicas quanto no exercício normal de suas responsabilidades. De qualquer forma, creio que a política pró-família do atual governante brasileiro é muito positiva e certamente uma das principais causas pelas quais a imprensa internacional se esforça para retratá-lo de modo parcial.

 

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