Que é o Brasil? (Parte III)

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Essa é a terceira e última parte de um breve ensaio sobre a identidade nacional — ou sobre a falta dela. Para a Parte I, clique aqui; para a Parte II, aqui.

 

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Quem é o nosso Deus?

 

“Enxofre, botija, galinha preta!
Credo em cruz, capeta, pé-de-pato!
Diabo brasileiro, dente-de-ouro, botija, onde está?
Credo, capeta, pé-de-pato!”

(Diabo brasileiro, Jorge de Lima)

 

Eric Voegelin, que foi filósofo, um dos maiores do último século e um dos grandes de todos os tempos, nos ensina que o real senso de comunidade – o xyon de Heráclito ou a homonoia de São Paulo Apóstolo – vem, em última análise, das experiências com o divino, pois é só ali, no Alto, que se pode encontrar a fonte desde onde emanam os elementos que conformam uma cosmovisão.

Cosmovisão – visão de mundo ou visão da ordem do mundo – fica aqui entendia como a compreensão dos princípios que ordenam o universo físico (cosmologia), a sociedade humana (política) e a psique individual (antropologia), e que explicam, ou pelo menos indicam, as causas últimas do ser (metafísica). Uma cosmovisão bem amarrada, por conseguinte, é o que fornece ao povo respostas suficientes sobre como o mundo passou a existir, quem o mantém, e para onde ele se encaminha; como a nossa sociedade surgiu e como devemos fazer para preservá-la; o que é o homem, por que ele existe, como ele faz pra ficar bom, e qual será seu destino após a morte; se Deus existe ou não; e, se existe, como ele é; e, se não existe, como o mundo surgiu.

Essa cosmovisão, porém, não surge de um esforço criativo postiço, como um Duda Mendonça criando o Santo de Caetés. Surge, isso sim, do resultado ou de uma intervenção divina direta, como no caso de Moisés no Monte Sinai, ou de intervenção divina indireta, como no resultado do esforço místico-filosófico como com o Buda, Sócrates e Platão. Quer dizer: o homem aprende essas verdades cruciais ou por um Sopro voluntário do Espírito ou por uma Iluminação dada a quem as busca com sinceridade, caso classicamente representado na Parábola da Caverna.

Tendo o sábio, o profeta ou o santo, essa gente que, como diria o Bergson, tem a alma aberta pra receber esses mistérios do mundo, tendo eles nos dado suas palavras vivificadoras, daí podemos engendrar alguma arte simbólica cristalizando essas inspirações em formas perenes que servirão, dali pra frente, menos para o deleite estético que para a pedagogia espiritual, de modo que o povo, abençoado com essa mensagem de cima, não a esqueça jamais. Os textos sagrados, a arquitetura religiosa, os ritos, os mitos, a grande literatura, a imitativa maior de que fala o Northrop Frye, tudo isso são exemplos de arte simbólica, destas que servem de bússola ao povo na sua marcha pelas densas matas da História.

 

Cosmovisão ocidental

Se transpusermos isso para a trajetória da nossa civilização, que tem base cristã e greco-romana, veremos que tudo que sabemos de essencial sobre a vida veio em parte do Pentateuco, em parte dos Evangelhos, em parte da Tradição da Igreja, em parte da filosofia antiga.

Todas essas peças, que juntas conformam a cosmovisão ocidental, ganhou uma forma mais ou menos fixa – mas não estanque e final – no medievo, sobretudo naquele período que vai de 1100-1400, conhecido como Baixa Idade Média.

Veja-se, como testemunho dessa cosmovisão, as catedrais góticas, aqueles grandes monumentos pontiagudos em que se inscreve, nas suas pedras e vitrais, toda a tradição da Europa cristã (que soma traços germânicos, romanos, celtas e árabes), com elementos de teologia, cosmologia, astrologia, psicologia, hagiografia etc.; a Divina Comédia, o grande poema de Dante Alighieri que cumpre uma semelhante função simbólica, só que em irrepreensível linguagem poética; a escolástica, de Santo Tomás de Aquino – e outros – que marca o mais fundo esforço analítico de compreensão da fé cristã com base na filosofia grega.

Essas grandes obras do espírito, mais que qualquer coisa, são depoimentos autoexpressivos da compreensão que o homem medieval tinha sobre Deus, o homem, a sociedade e o mundo, a comunidade do ser, como dizia o Voegelin. Ou seja, para todo homem de conhecimento da época, a ordem das coisas estava mais ou menos clara, e, por esse motivo, eles podiam cumprir seu papel ontológico de ensinar às gentes humildes, seja por meio da catequese, do teatro popular itinerante (veja-se o nosso Gil Vicente), na poesia (como em Chaucer), nas canções e nas lendas (como com as histórias arthurianas), como é que se tinha que viver pra vida aqui na Terra ser a melhor possível, e pra gozar, mais tarde, da beatitude eterna no Céu.

Havia, pois, uma civilização coesa – embora no plano baixo da política houvesse terríveis guerras e dissensões, e no plano das artes populares houvesse uma grande variedade de expressões, cada povo mesclando o pano de fundo cristão com suas tradições próprias.

A modernidade ocidental, porém, é marcada pela ruptura dessa mesma cosmovisão medieval e pela tentativa de se criar um outra em substituição, via de regra com bases na mui humana racionalidade. O problema é que o intelectual moderno, por francês, alemão ou americano que seja, e independente se formado em Harvard, Oxford ou na Sorbonne, não goza do mesmo prestígio e nem tem o mesmo gênio espiritual de um profeta das antigas. Veja, estamos já com a Inteligência Artificial batendo às portas, o mundo galopando, de novo, aos píncaros do progresso material, mas quem ainda goza de verdadeiro poder, pois realmente orienta a vida de bilhões de seres humanos, é um asceta indiano, uns nômades palestinos, outros nômades árabes, tudo gente que viveu há muitos séculos.

Daí que a modernidade, e essa é uma conclusão comum à toda a literatura que trata da crise do mundo moderno, espezinhou a fé tradicional, mas não deu nada que prestasse em troca. O Ocidente está num limbo. E por isso as pessoas andam tomando misoprostol, e se entupindo de LSD, e se jogando dos prédios.

E se esse argumento parece exagerado, fundamentalista, acrescento, de lambuja, que o famoso psiquiatra Viktor Frankl, criador da terceira escola vienense de psiquiatria, e que não tinha nada de fanático religioso, chegou, por outros meios, à conclusão semelhante: o sujeito moderno vive uma profunda crise existencial. Vive num vazio, perdido, desenganado. As estatísticas de suicídios e o setembro amarelo estão aí para corroborar o ponto. E Frankl atribuiu essa neurose coletiva – neurose noogênica, uma doença na alma – justamente à perda das nossas tradições, ou da nossa cosmovisão, ou, enfim, daquilo que dá sentido às nossas porcas vidas.

 

Cosmovisão brasileira

O Brasil, por sua vez, que é um país com certidão de nascimento católica, surge bem no começo do fim dos tempos cristãos.

Houve, porém, um esforço de se renovar, aqui na Terra de Santa Cruz, a fé que andava naufragando pelos lados do Reno, do Tibre e do Tâmisa. Mandaram então pra cá a fina flor da Igreja, os jesuítas, uma ordem recém-criada por Santo Inácio de Loyola e oficializada no Concílio de Trento, o da Contrarreforma. Queriam, com isso, cristianizar o povo recém-chegado aos trópicos, os índios e os negros pagãos, os colonos de fé mambembe, fé amolecida pelo calor, pela nudez das indiazinhas, pela lonjura das missas.

E os jesuítas iam lá fazendo seu trabalho, sobretudo com a gente vermelha. Porém eles não se davam com os homens que queriam fazer virar dinheiro nessa terra quente. Os portugueses queriam fazer do índio gato-e-sapato, e os jesuítas queriam levar os pobres para o Céu, ensinando-lhes sobre Deus, a Virgem, os Anjos, o Inferno.

Daí que o padre Antônio Vieira passasse os maiores sabões nessa gente interesseira, e o maledicente Gregório de Matos, nosso primeiro poeta de gênio, fizesse todo tipo de gozação com esses senhores orgulhosos.

Mas os jesuítas, que eram, vejam só, nossa única ponte para uma cosmovisão superior, universal e unificadora, esses jesuítas, passado pouco mais de um século da chegada, foram sendo expulsos, esculhambados. Um resumo da ópera está em O Uraguai de Basílio da Gama, um poema épico que, na verdade, foi um panfleto difamatório encomendado pelo iluminista Marques de Pombal para escoiçar os homens da Igreja e arrumar os pretextos para proibi-los de trabalhar as almas ainda áridas da nossa terra, almas mais áridas que o chão duro da seca.

Indo-se embora os jesuítas, não sobrou quem os substituíssem no projeto civilizacional, no plano nobre de trazer a religião de Cristo e a filosofia dos helenos para o Brasil. Aliás, quem tentou fazer as vezes dos homens da Companhia de Jesus e se meteu a educar o povão foram os liberais-progressistas, os positivistas, e mais tarde os comunistas. Tudo uma bela porcaria, pois, sendo todos, em última análise, subprodutos desviados do cristianismo, nenhuma dessas pseudofilosofias possuía os princípios sólidos e universalizantes para engendrar uma cosmovisão convincente e duradoura como a de Abraão, Maomé ou a de Buda.

Na verdade, o louro máximo dos concorrentes dos católicos foi criar cizânias inumeráveis, na medida em que, não tendo nada melhor pra se socorrer, o povão, ouvindo um espertinho aqui e outro acolá, foi perdendo o fio da meada, ficando distante das tradições, até se tornar essa estrovenga esclerosada e sincrética que de manhã reza o Pai-Nosso, a tarde vai tomar um passe no centro de macumba e de noite milita pela revolução socialista. E isto na melhor das hipóteses. O normal, hoje, é o brasileiro médio viver, do início ao fim da vida, sensabê oncotô, doconvi, proncovô.

Aqui está o ponto. Todo o esforço artístico, e pior, o político, de desenhar um Brasil por algum traço botânico, filogenético, linguístico, afetivo. étnico ou sócio-econômico vai falhar miseravelmente. Nós não nos entendemos no essencial, não temos as mesmas referências simbólicas, não imaginamos o mundo com as mesmas possibilidades, não temos finalidades últimas semelhantes, não concebemos os vícios e as virtudes com os mesmos critérios, em suma, não conversamos com o mesmo Deus. Como desse carnaval podemos tirar uma identidade comunitária, uma cara brasileira, um eidos tupiniquim?

 

A via histórica

“Uma identidade nacional é a memória dos grandes feitos realizados em comum”.

(Olavo de Carvalho)

 

História não é qualquer coisa. É, antes, aquilo que vale a pena ser contado. O fato de eu ter passado um cafézinho antes de sentar pra escrever esse texto não é histórico. A queima das sacas de café em meio à Crise de 29 é. Só contamos a história daquilo que é memorável, mas não memorável pra mim – às vezes faço mesmo uns cafés memoráveis – mas para toda uma comunidade.

O filósofo Olavo de Carvalho, um grande sábio que nos foi dado para, pelo menos, entendermos esse quadro lamentável, martela bastante a tese de que a nacionalidade deve ser encontrada menos num orgulho bobo da terra (a Amazônia é nossa!) ou nos feitos artísticos corriqueiros do que na memória das conquistas comuns, nos atos mais relevantes da coletividade (Guerra do Paraguai), nos momentos cruciais pra sua formação (Bandeiras, Independência), no passo-chave ao incremento da sua prosperidade, nas suas contribuições imortais à humanidade.

Vai aqui uma anedota.

Juro que passei as primeiras horas da Independência de 2019 no bairro de Ipiranga, mais precisamente no Clube Atlético Ypiranga. Fui num baile de dança de salão. Há poucos minutos dali fica o riacho onde se deu o Grito. Estava, portanto, no centro do fato, no lugar mesmo onde foi feito o parto da nossa gente.

O baile estava brasileiríssimo – se é que isso quer dizer alguma coisa. A banda tocava músicas nossas e importadas, muito chá-chá-chá e bolero, coisas caribenhas, pouquíssimo samba, pra provar meu ponto inicial. Na pista, uma amostragem da nossa raça informe: brancos, pardos, negros, amarelos. A maioria dos dançarinos já tinha um pouco mais de idade. Se vestiam colorido, com sapatos no brilho, vestidos com lantejoula, chapéus de malandro, sandálias finas. Uns estavam até fantasiados. Um sósia da Elke Maravilha deu o ar da sua graça. Todos muito alegres, rodopiando de uma ponta a outra do salão com rara beleza.

O problema é que, do início ao fim desse baile, no dia da Independência, e lá em Ipiranga, não se disse nem um pio e não se fez qualquer referência à Dom Pedro I, a seu brado retumbante, aquele ouvido às margens plácidas do riacho que estava ali na esquina, muito menos à José Bonifácio ou à qualquer artificie da nossa emancipação.

Entendermos a nossa História, sabermos quem foram nossos heróis e heroínas, e aprendermos a louvá-los com a deferência cabida a quem nos fez coisas memoráveis, pode ser que esteja aí uma opção, pelo menos parcial e provisória, na busca pela nossa identidade. E essa via não é nova. Desde Varnhagem e Capistrano de Abreu, por exemplo, tenta-se chegar à brasilidade por esse beco. E hoje, mais uma vez, há um movimento, ainda incipiente, mas real, de redescoberta do Brasil pela memória coletiva. Tem-se estabelecido o Império, sobretudo o Segundo, como nosso tempo áureo; o Andrada como nosso Pai Fundador; e Dom Pedro II, o Bom Rei, amado pelo povo, como seu mantenedor. Esse esforço de retraçamento da identidade nacional pela via histórica parte, contemporaneamente, de grupos e intelectuais independentes, ligados uns mais e outros menos à filosofia olavista, que tentam reestruturar um movimento conservador brasileiro. É um começo.

No entanto, encerro com pessimismo – porque, com essa coisa de coach, andamos otimistas até demais.

Conclusão

“Os que assistiram às festas do Senhor Bom Jesus de Pirapora, em São Paulo, conhecem a história do Cristo que desce do altar para sambar com o povo.”

(O homem cordial, Sérgio Buarque de Holanda)

 

Me parece que sem o renascimento do espírito, de modo que a obra evangelizadora dos jesuítas se cumpra, tudo será remendo, improviso, gambiarra, jeitinho.

Por mais chocante e antimoderno que isso possa parecer – e é mesmo – ou aprendemos a responder, enquanto indivíduos e sociedade ao mesmo Deus, como nos velhos tempo, ou, por não falarmos a mesma língua, que depende de uma mesma cosmovisão, tenderemos sempre à loucura, dessas que geram 70 mil homicídios por ano, e apostaremos de novo e de novo num plano político miraculoso, uns nos tratando com rédea curta, outros nos incentivando à mais confusão, no típico arranjo da moderna religião civil, onde o Estado tenta se passar por Deus.

No último caso – que é o mais provável, pelo histórico e pela índole do brasileiro – continuarão nos dizendo, por conveniência, que somos o samba e o futebol.

 

 

 

 

 

 

 

 

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