Que é o Brasil? (Parte I)

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Essa é a primeira parte de três de um breve ensaio sobre a nossa identidade nacional — ou sobre a falta dela.

 

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Samba 

“Brasil, meu Brasil brasileiro”.

 

Outro dia estava num baile de dança de salão, pois sou professor dessa arte gostosa, e notei que mesmo pessoas versadas no assunto tinham muita dificuldade pra dançar o samba de gafieira. É um ritmo malandro, que exige agilidade, ginga, e requer do dançarino um bom ouvido pra sentir o suingue do compasso africano, terroso, uns batuques que martelam no fundo, por debaixo na melodia, um eterno, tic, tic, tum; tic, tic, tum; tic, tic, tum.

Vendo aquele sufoco, pensei comigo mesmo: quantas pessoas no Brasil dançam samba? Pouquíssimas, calculei. É uma coisa tribal. Deve haver umas 100 pessoas que dançam com excelência e umas poucas milhares, num país de muitos milhões, que dançam pro gasto.

E quem canta samba?

No Rio, há quem cante. Esta lá o Diogo Nogueira, o João Sabiá, o Dudu Nobre. Em São Paulo temos o pagode mela-cueca, grupos da linha Exaltasamba, do Pixote, e também o partido-alto carioca que rebenta nas feijoadas, mas só aos sábados. Tudo hábito tribal, de gueto.

E no resto do país? Dá pra imaginar um goiano com sua bota de couro e seu chapéu de vaqueiro pinicando o cavaquinho ou ralando o reco-reco? Ou uma manauense sambando no pé com pandeiro sacudindo e tilintando nas mãos? Ou o gaúcho de bombacha e chimarrão acompanhando o Zeca Pagodinho com seu banjo e bandolim?

Não cantamos e muito menos dançamos o samba.

E o carnaval?

Carnaval, a antiga festa saturnina, o dia da revolução permitida, da inversão da ordem, da brincadeira solta, na rua, pro povo desanuviar a mente dos problemas, esse carnaval ainda vive nos bloquinhos – ainda que hoje esteja contaminado da droga excessiva, do sexo ao léu, do golden shower. O carnaval da TV, o dos carros trabalhados, o da pirotecnia, das modelos nuas, da Sapucaí e do Anhembi, esse carnaval que, dizem, seria nosso distintivo universal, esse é coisa pra gringo e carnavalesco. O povão mesmo está pouco se lixando.

E nos bloquinhos de hoje toca tudo, menos samba.

 

Futebol

“Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração”.

 

Há alguma coisa mais forçada que assistir jogo de Copa do Mundo com a família? Está lá nossa tia Maria, que levou o pudim, o primo Cleyton, fã de NBA, o tio Rubens, professor de Física, a tia Lourdes, que levou a maionese, a irmã funkeira mergulhada no Instagram, e o irmão Bruno, de seis anos.

Ao anúncio do Galvão todos correm ansiosos pra frente da TV. Daí cantamos o hino à capela, com mão no peito, os parentes confundindo quase tudo do “deitado eternamente” pra diante. Na hora nos arde alguma coisa de patriota. “Mas ergues da justiça clava forte”. Cantamos alto, nos arrepiamos.

Então rola a bola e todo mundo, no começo, tem que se fingir tenso. Afinal, pensamos, é nossa pátria, nosso orgulho que está em jogo. Somos, para todos os efeitos, o país do futebol!

Dá 15 minutos. Se o jogo ainda estiver no 0 x 0, meio mole, troca de bola no meio campo, o pessoal vai se distraindo, vão mudando de assunto, qualquer coisa sobre a família, o trabalho, o clima, a igreja.

Então sai um gol, a única coisa que todos reconhecem no esporte. Ninguém sabe quem foi o marcador, a não ser uns três ou quatro honestamente interessados na peleja — e honestamente irritados com a turma.

— Foi o Ronaldinho? – pergunta a tia do pudim.

Alguém responde que o craque já pendurou a chuteira há década.

Com o gol, porém, a galera fica ensandecida. Comemoram, se abraçam, soltam os fogos caros, veem pretexto pra mais uma cerveja, pra assar mais uma linguiça, um contrafilé. Aparece o Olodum na tela. Eita, que é o Brasil latejando.

Então acaba o jogo e cada um vai pro seu canto, exceto aqueles únicos três ou quatro aficionados que não desgrudaram da tela e que agora, aliviados pelo resultado positivo ou melancólicos da derrota, farão a resenha do espetáculo, comentando jogada por jogada, os lances polêmicos, o impedimento, o pênalti. Uma coisa bastante masculina, mas só pra alguns homens. No fim, é só mais um costume tribal, só que de tribo mais populosa que a dos sambistas.

Nos quatro anos que separam um Mundial do outro, as tias, as primas, os tios e os irmãos, não tocam mais no assunto. Nesse entretempo, ficam sabendo do futebol, de relance, ou quando um time da cidade está na final dalgum campeonato de vulto, e por isso os torcedores mais assanhados abusam do foguetório e dos xingamentos, ou quando sai pancadaria e morte nos estádios e o crime passa no jornal sensacionalista do início de noite. Lembram do futebol, portanto, mais pelo incomodo social que ele causa que pelo amor nacional que a lenda nos atribui ao jogo bretão.

E há um agravante mais contemporâneo.

O futebol brasileiro virou vitrine pra exportação de moleque metido à besta que quer ir logo pra Europa encher os burros de grana – e o quarto de modelos bonitas. Ficamos aqui, desta feita, só com os novatos pernas-de-pau ou com os craques pré-aposentados, barrigudos, do joelho remendado, o fôlego já se extinguindo, que voltam do estrangeiro alegando saudade do feijão da mamãe e das marcas de biquíni que só se fazem na Baía de Guanabara.

Então a meninada interessada no esporte passa a só querer saber de Champions League (Europa), de Premier League (Inglaterra), de La Liga (Espanha), da Bundesliga (Alemanha). Lá que estão os craques, gente que dá gosto ver jogar. A grande estrela do Brasileirão desse ano, o tal do Gabigol, do Flamengo, veja só, comeu foi é banco na Itália e em Portugal, países cujos campeonatos nacionais nem são dos mais concorridos. Mandaram a bucha de volta. Essa é a situação.

Desse modo, minha gente, quem quer que viva nessa terra, veja essas coisas, e ainda acredite no mito de que somos o país do samba e do futebol está tão conectado com a realidade brasileira quanto o Emmanuel Macron.

Mais. Essa afirmativa mítica da nossa identidade não é errada só pelo fato de que esses dois elementos da baixa cultura, da expressão popular mais básica, não poderiam ser, em hipótese alguma, traços distintivos de qualquer nação.

É errada também porque esses elementos postiços, incorporados profundamente na nossa psique e entendidos como peças cruciais na autopercepção contemporânea do que é “ser brasileiro”, foram, à época da sua criação, nada mais que peças de propaganda políticas visando a afirmação de dois regimes ditatoriais, o varguista e o dos militares, que quiseram “criar um Brasil” no tapetão, na canetada. Foi a nossa já tão debatida amnésia coletiva, um mal tão nosso e tão mais brasileiro que o samba, que fez com que nos esquecêssemos da raiz do problema, a ponto de a coisa, após algumas gerações, se impregnar tão firme e decisivamente no imaginário popular que goza aqui de força semelhante aos cantos Homéricos pro grego ou da Tora pros hebreus.

Se quiserem, somos o país do samba que ninguém quer sambar e do futebol que já enchemos o saco de assistir.

 

Concluindo

O topos “o Brasil é o país do samba e do futebol”, que é absolutamente falso, virou, portanto, como que o ponto de partida para todo esforço de compreensão da identidade nacional. É escusado dizer que, começando com uma lorota assim, a prosa não vai levar ninguém pra canto algum.

Música

Partindo de uma observação mais realística, parece possível afirmar que o estilo musical mais difundido no Brasil é o sertanejo e suas variações locais, do modão e da cantoria que se faz na mancha caipira, do Rio Grande do Sul aos rincões da caatinga, aos sertanejos universitários, o brega, o tecno-brega e derivados que são mais típicos dos centros urbanos do Norte e Nordeste. Depois, temos o forró e o axé no Nordeste, cada qual com suas adaptações e ramificações em sub-estilos; o brega calypso do Norte; o samba e o funk cariocas; o pagode e o rap paulistas. Sem contar as festas e tradições locais como o indianismo do Garantido e Caprichoso de Parintins; as músicas e danças folclóricas do Sul europeu; o frevo de Olinda.

E aqui ainda estamos falando de fenômenos musicais que tem alguma espontaneidade, na medida que parecem derivar de tradições populares mais ou menos legítimas, carregando marcas históricas mais típicas do lugar.

Há, porém, para complicar o quadro, todo o fenômeno da música de massa e da criação de novas possibilidades musicais, divulgadas nos quatro cantos do país pelas rádios e TVs, que nada tinham que ver com as criações antigas da terra. Veja-se o rock, o pop, o black, o country. Tudo coisa gringa que hoje consta entre os ritmos mais ouvidos nos centros urbanos e mesmo nos raios interioranos que, de alguma maneira, participam, por mimese, da cultura da cidade grande. Aliás, com o advento da internet, do ponto de vista dos costumes culturais mais arraigados, fica muito difícil delimitar o que é campo e cidade.

Daí que se quisermos encontrar uma brasilidade nas músicas que ouvimos, cairemos feio do cavalo.

Esporte

Tanto menos encontraremos qualquer pista nos esportes. Se o futebol está longe de ser uma unanimidade, não há vôlei, F1 ou ginástica olímpica que dê jeito. Pior: como o esporte por aqui, no geral, anda capenga – por uma série de motivos de ordem social, econômica e política – tem muita gente buscando alternativas de entretenimento esportivo lá fora: vai crescendo o número de brasileiros de olho na NFL, na NBA (como o primo Cleyton ali de cima), em Roland Garros.

Porém, é trabalho vão demonstrar como essas coisas, de fato, não conformam nossa identidade nacional. A bem da verdade, música popular e esportes no geral são meras expressões fortuitas do que um povo faz nas suas horas vagas. E isso pode variar tanto quanto é vário o território e tanto quanto mudam os tempos. Não são, desse modo, critérios firmes, duradouros, para que achemos neles o eixo em torno do qual podemos conhecer a tão procurada forma da mente brasileira. Desse mato, portanto, não sai nada.

Continua.