Com protestos da esquerda e baixa popularidade, Piñera se alinha à “direita permitida”

1
Reuters/ A. Machado
Anúncio:

A imprensa brasileira vem tentando dar a impressão de que há uma “crise diplomática” entre Brasil e Chile, devido o posicionamento de Sebastian Piñera contra as respostas de Bolsonaro à ex-presidente chilena Michelle Bachelet. O que os jornais não falam é que o governo do Chile vem enfrentando protestos violentos da esquerda nas ruas, especialmente nesta quinta-feira (5), um dia após o aniversário de 49 anos da eleição do socialista Salvador Allende, derrubado por Pinochet. Centenas de pessoas tomam as ruas contra o governo, conforme mostram registros de sites pelo Twitter desta quinta-feira. A baixa popularidade, tanto na direita quanto na esquerda, vem colocando Piñera em uma delicada situação, obrigando-o a tentar alinhar-se às pressões de ambos os lados para não ser jogado fora pelos dois.

Os manifestantes associam o presidente Sebastian Piñera a Bolsonaro, ambos como lacaios de Donald Trump, em uma narrativa de pressão da esquerda, que tem em suas mãos movimentos sociais e jornais de todo o mundo, além da ONU. Piñera vem caindo em credibilidade após ter vencido as eleições pela falta de candidatos que encarnassem o cansaço geral com a esquerda e a crescente onda conservadora no país.

Anúncio:

Depois de uma reforma tributária que aumentou os impostos e de aprovar uniões homoafetivas, a ex-presidente Michelle Bachelet só conseguiu apoio internacional. Chegou ao posto que ocupa na ONU enquanto seu próprio país teve que eleger novamente Sebastian Piñera na falta de alternativa melhor.

Com voto facultativo desde 2012, o Chile viu um florescimento da direita ao mesmo tempo que as regiões tradicionalmente de esquerda não tiveram ânimo suficiente para sair de casa e dar continuidade à esquerda, que apesar do primeiro governo de Piñera, havia estado no poder por 20 anos desde o fim do regime militar.

Parte da imprensa internacional precisa constranger a classe política convencendo-a de que o alinhamento com Bolsonaro ou Trump é uma postura não permitida, fora das “regras usuais e saudáveis do jogo democrático”. Com Piñera isso tem funcionado muito bem, já que o chileno enfrenta grande pressão política e popular em um contexto de perda de popularidade que se iniciou este ano.

Essa situação explica o posicionamento de Piñera diante da resposta de Bolsonaro à ex-presidente chilena Bachelet, após o chileno ter vindo ao Brasil para reafirmar o seu total apoio na polêmica contra o presidente francês Emmanuel Macron. Pode ser que algum assessor ou conselheiro tenha sugerido que foi uma burrada apoiar Bolsonaro. Mas o certo é que os cartazes associando os dois a Trump e ao nazismo, como costuma fazer a esquerda, pode estar mexendo com a cabeça do bilionário chileno.

Mas o apoio de Piñera ao Brasil no tema da Amazônia pode ter motivos muito semelhantes aos que instigaram Macron a ofender o Brasil: a vertiginosa queda de popularidade.

O tema da soberania é caro ao Chile. Afinal, o Chile enfrenta um impasse de décadas com os bolivianos e peruanos sobre delimitação de fronteiras marítimas, o que pode ter acendido o alerta de Piñera como uma oportunidade de barrar a queda de popularidade.

Piñera é mais útil à esquerda do que à direita

Mas a esquerda chilena pode estar temendo essa perda de credibilidade de Piñera, como mostra recente artigo do El País. Acontece que a esquerda pode estar percebendo que o enfraquecimento de Piñera não significa perda para a direita, mas pode ser para a esquerda. Afinal, o descontentamento também vem de direitistas, movimento que cresce em todo o mundo e não é diferente no Chile.

A esquerda também sabe que há nomes mais radicalmente conservadores do que Piñera crescendo no país, como o liberal Joaquín Lavin e o conservador José Antonio Kast.

Ex-candidato à presidência, Kast vem juntando assinaturas para a criação de um novo partido conservador, o Partido Republicano. Em recente pesquisa de intenções de voto, publicada pelo jornal chileno La Terceira, Kast e Lavin aparecem liderando a disputa eleitoral, no que seria uma acirrada campanha com monopólio de candidatos de direita.

Em seu Twitter, Kast criticou as investidas de Bachelet contra o governo brasileiro, que julgou um abuso do seu posto na ONU e um claro sinal de que atua ideologicamente em favor de seu amigo Lula.

Portanto, a tentativa de criar uma crise diplomática entre os dois países vem da esquerda, ecoada pelos jornais da grande mídia, no mesmo movimento de pressão contra Piñera e um aviso a qualquer político que se alinhe a Bolsonaro e a Trump. Ao mesmo tempo, o temor da esquerda diante da onda conservadora que varre o continente (e o mundo) motiva a criação de pressões para um tipo de “direita domesticada”, um “mal menor” à esquerda, bem representado por Piñera e, no Brasil, por nomes como João Dória.

 

Inscreva-se em nossa Newsletter e receba novidades por e-mail.

 

1
Deixe um comentário

avatar
8000
1 Tópicos de comentários
0 Respostas em tópicos
0 Seguidores
 
Comentário mais reagido
Comentário mais polêmico
1 Autores dos comentários
Aye Autores de comentários recentes
  Notifique-me  
Notificar de
Aye
Visitante
Aye

O Sebastião pinera seria uma espécie de João Amoedo do Chile, por isso ele é tão rejeitado quanto seu homônimo brasileiro.

Liberais são esquerdistas.