O poeta, Champinha e Maria do Rosário

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Estava lendo o Murilo Mendes e me surpreendeu um verso seu que alardeva a morte duma famigerada deputada dos nossos tempos.

Dizia:

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“Maria do Rosário estendida no caixão”.

Pensei, “uai – pois também tenho um pé em Minas –, que vaticínio mais estranho. Que tinha ele que ver com essa petista malcriada?”

Dormi com isso.

Não obstante, quando acordei a coisa se me revelou límpida com um regato do Tietê. Entendi que Murilo tinha qualquer coisa de profeta e que conversava por enigmas. Explico.

O poema, repare, chama A Morta Viva, e é bem esse o estado de espírito da Maria Rosário nesta quarta setembrina.

A questão é que na madrugada estourou rebelião num presídio de São Paulo e o cabeça do motim era ninguém menos que um ente querido da gaúcha catimbeira: o menino Champinha.

Champinha, para quem não sabe, é como um filho pra Rosário.

Certa feita, a deputada quase chegou às vias de fato com um colega de Parlamento, na frente das câmeras de TV, por causa do rapaz, seu predileto. À época, 2003, o garoto de dezesseis fora encarcerado. O crime? Uma ninharia. Sequestrou, estuprou e esquartejou a jovem Liana Friedenbach.

A deputada, por conseguinte, ciosa dos Direitos do Homem e do Cidadão, escritos à sangue e cinzas pelas revoluções pregressas, fez coro à sua libertação, militou por sua melhor sorte. Champinha, defendia Rosário, nas entrelinhas, era só uma criança, um dimenor. E mais: era um desenganado social, um pária, uma vítima inerte das maquinações do mundo liberal-burguês, um joguete nas mãos do demiurgo que governa o universo em prejuízo dos fracos e oprimidos.

Urgia, portanto, que alguém lhe fizesse justiça. Rosário, nossa Palas Atenas, foi lá e fez às vezes.

Pensa se essa mulher não ficou feito morta-viva quando soube da bagunça na cana. Ainda mais com essas desgraceiras todas acontecendo nos presídios brasileiros, com o Moro e o Bolsonaro comemorando criminosos falecidos, a população lambendo os beiços da reparação de seus crimes sendo feita.

É isso, pois, que adivinhara o Murilo Mendes. Li ontem o verso místico do homem e hoje aconteceu a coisa. O sujeito era um oráculo.

“Maria do Rosário estendida no caixão”.

Pura metáfora, malandragem de quem só da o recado por linhas tortas. O resto do poema, muito bonito por sinal, é, portanto, mero adorno estético.

Por fim, leiamos Murilo Mendes.