Traidores e oportunistas: a última grande esperança da imprensa contra Bolsonaro

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Foto: Mauricio Vieira/divulgação/Governo de Santa Catarina
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Não é difícil nem raro um político, celebridade ou formador de opinião, opor-se a um sistema político, ideológico ou mesmo a um sistema financeiro hegemônico. Existem fartos instrumentos políticos hoje disponíveis para quem quiser lucrar politicamente bancando o outsider sem, no entanto, perder as regalias que o sistema oferece. Mas é bastante raro e quase improvável que algum político se oponha a todo um sistema de mídia que detenha considerável poder de determinação sobre a opinião pública. Isso porque a maioria das pessoas, especialmente os politicamente interessados, possuem um elevado grau de apego à própria imagem.

Seria esse, então, o caso do governador João Dória (SP), Carlos Moisés (SC), e deputados como Alexandre Frota, Kim Kataguiri (DEM), entre outros que vêm enriquecendo e atualizando o imaginário do brasileiro sobre o oportunismo político? Certamente sim. Os que os chamam de traidores, pelas redes sociais, talvez precisem revisitar com atenção o passado desses personagens que, no fundo, nunca se identificaram com propostas que os alinharia ao que em 2018 foi chamado de “Onda Bolsonaro”.

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João Dória fez o que pode para associar-se a Bolsonaro nas eleições. Depois de largar a prefeitura de São Paulo para o governo do Estado, agora larga tudo em nome de possível candidatura a presidente, decisão obviamente abençoada pela imprensa, que o vê como “escolhido” para bater Bolsonaro em 2022.

Carlos Moisés (SC), que literalmente brigou para ser o “candidato de Bolsonaro em SC”, apostou pesado em todas as agendas contrárias ao governo tão logo fora eleito no estado com a maior votação bolsonarista. Uma mudança deste tipo só pode ser possível com a certeza da unção midiática, mostrando que ir contra todo um país é mais fácil do que bater de frente com os jornais.

O ex-ator pornô, Alexandre Frota, só faltou deitar-se em leito de amor com o então candidato do povo durante as eleições, devendo a isso toda a sua popularidade nas redes sociais. Perdendo essa popularidade, porém, sobra a Frota o berço esplêndido dos jornais que o passaram a adornar de importante “ponto crítico” e “perda” do governo.

Já o nipo-liberal Kim Kataguiri, fez da sua diminuta carreira um palanque de elogios a velhas raposas políticas ao ponto de ser eleito pelos jornais o representante legítimo da direita. O seu movimento jovem, o MBL, cresceu tentando associar-se às vozes populares, o que prontamente trocaram pela convivência com altas esferas e nomes em capas de jornais.

Quem escolhe a direita permitida?

Mas estes notáveis exemplos de surfistas da onda politica conservadora se beneficiaram de uma tática ideológica já existente e bem mais abrangente que o bom e velho oportunismo, embora essa desprezível motivação os tenha verdadeiramente acalentado os corações. De tão originais em suas “consciências individuais”, mal sabem a que estratégia se submeteram cordeiramente. Acreditam estar no controle mais ativo do processo político brasileiro, sem perceber diante deles um processo que obedece a dinâmica infinitamente superior às ambições de meia dúzia de idiotas úteis.

O jogo das tesouras mantido entre PT e PSDB só foi possível graças ao intenso trabalho do jornalismo nacional, que soube substituir tudo o que havia de autêntico nas crenas, valores e percepções políticas do brasileiro comum por um jogo de espelhos que o associa a exóticas e superadas posições, dignas apenas de comparações grotescas que visam apenas demonizar qualquer sentimento ou opinião conservadora que por ventura venha a romper essa intrincada espiral de silêncios consentidos.

Seguindo a tática dos grandes sistemas de comunicação internacionais, o jornalismo brasileiro soube criar verdadeiras censuras silenciosas, nas quais todo homem comum se torna um refém de olhares inexistentes, apenas insinuados, vigilantes do politicamente correto.

Mas os atores de um palco, representando uma peça, precisam de toda forma convencer a platéia de que ela mesma não existe. Sem isso, toda a representação carecerá de toda credibilidade e verossimilhança. O homem comum, por isso, precisa inexistir, sendo silenciado pelo constrangimento.

Se o jornalismo brasileiro se tornou uma máquina de criação de um pseudo-ambiente, isso também o converteu em palco preferido de atuação pelos aspirantes ao poder e demonstra o valor fundamental de adoração da classe política: o fingimento e o engodo sobre o que é a sociedade e a criação de uma esfera pública sob-medida para os anseios de concentração de poder e administração da vida humana.

Todo processo de artificialização da realidade serve ao controle, pois o que é natural já é livre do controle humano. É próprio dos oportunistas a habilidade de captar a força mais eficiente e alinhar-se a ela.