Dois dedos de ironia ou: a caridade do Jovem Iago

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“Por que viste nos atrapalhar”

Fiódor Dostoiévski, O Grande Inquisidor

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Ia o Jovem Iago passeando pelos arrabaldes da Sé quando notou um tumulto na Praça.

Um grupo imenso de mendigos esfarrapados e fedidos cercava um Homem limpo, de vestes alvas, cabelos longos e movimentos majestosos. Um cheiro doce saía do Homem, saneando o lugar.

— Que é isso? – perguntou o Jovem Iago, de cenho franzido, a uma mulher desdentada que aguardava a sua vez de se aproximar do Homem.

—  Ah, meu fi. É um Santo. Tá dando comida pros pobres tudo! Vai dá pra você também, espere…

O Jovem Iago espumou de raiva. Seu rosto ficou muito vermelho por detrás da barba feita e dos óculos de estudante sabido.

“Quem esse sujeito pensa que é?, disse de si a si. Veja, não há critério. O cara sai distribuindo comida pra todo mundo, mesmo aos parrudos! Que irresponsabilidade! Isso tá ruim, meu Deus. Assim essa gente não aprende a comprar o próprio pão! Daí não terão dignidade. É um irresponsável!”

O Jovem pensava essas coisas e ia furando, às cotoveladas, o círculo dos desgraçados. Queria falar tête-à-tête com aquele contraventor, ensinar-lhe umas lições. Chegando perto, disparou:

—  Epa! Epa! Parado aí, meu senhor! Quem você pensa que é pra causar essa arruaça aqui?

O Homem não disse nada. Só olhou muito candidamente pro Jovem Iago, como um pai que admoesta um filho traquinas, metido a grande. O Jovem ficou ainda mais perturbado.

—  Não me venha se fazer de santo, doutor! Você por um acaso sabe o mal que está fazendo a esses coitados, lhes dando comida, assim, a esmo? Pô! EU JÁ VIVI ENTRE OS MENDIGOS, EM UM ESTUDO DE CAMPO, SEI DO QUE ESTOU FALANDO! Isso deseduca, deixa essa gente preguiçosa! Não é assim que ajuda, senhor!

Ao falar “senhor”, fez uma aspa no ar, com dois dedos em riste.

Nisso os mendigos começaram a soltar vaias, assobios, uivos e xingamentos.

“Sai daí, rapaz”, “Não atrapalhe, estamos famintos”, “Deixa o Homem fazer o milagre, moço”.

Então o Homem de branco fez-lhes um sinal para se acalmarem e continuou distribuindo os pães, ignorando o Jovem. O Homem entregava o pão naquelas mãos sujas e feridas e depois dava-lhes um beijo na testa, fosse leproso, aidético, travéco, velha paralítica, menino buchudo, prostituta jovem.

—  Menino – disse, com os olhos marejados, um velho recurvo, apoiado num pedaço de pau. Ele também esperava sua vez – não vê que o Homem é Deus…

O Jovem Iago estourou.

—  Ah é!?!? Pronto, mais essa!? Velho, eu sou teólogo!

Daí começou a citar as mil e uma passagens da Bíblia que fala de falsos profetas e das punições aos blasfemos. Citou em grego, hebraico, aramaico e latim, não sem apontar os possíveis desvios semânticos, a historicidade dos termos, o status quaestionis de cada versículo.

O velho, em retruque, enfadado daquela amolação, citou só uma das Bem-Aventuranças do Cristo, a dos puros de coração, os que verão a Deus. Mas o Jovem Iago, ufano de sua exegese, não lhe deu ouvidos. No fim, apelou aos justos.

—  Guardas! – e fez sinal a um carro da Guarda Metropolitana que acampava em frete ao Palácio da Justiça.

Os Guardas, ansiosos pra cumprir a lei, obedeceram ao chamado.

—  Guardas, esse homem está dizendo que é Deus! E pior: está dando esmola! Ouviu? Es-mo-la! Não pode, seu guarda. Aí esse povo não sai da rua. Todos sabemos que tem que doar a uma instituição de caridade, com CNPJ, sede social.

Quando o Jovem disse isso, umas senhoras, aparentemente da classe média-alta, que saiam da Catedral, aplaudiram com entusiasmo.

Houve então um auê. Os mendigos chorando e protestando, os guardas distribuindo cacetadas, aspergindo spray de pimenta para dispersar a malta e escoltando o Jovem, ameaçado de linchamento pelo populacho. Enfim, levaram o Homem preso.

Naquela noite, muitos dos pobres que ficaram sem seu quinhão da caridade morreram de fome – e desgosto –, ali mesmo, na Praça.

Quanto ao Homem, três horas depois da detenção, segundo os autos, simplesmente desapareceu da cela – não sem antes dizer umas palavras de consolo aos encarcerados. Todos ali se maravilharam com o Homem e sentiram muito sua partida. Desde então, não falam em outra coisa.

Diz o boato, cuja ciência não pode atestar, que os mendigos falecidos naquela noite foram pra junto do Homem.

Já o Jovem Iago, na manhã seguinte, gravou, todo orgulhoso, um vídeo no Instagram. Na filmagem, expôs a situação; deu preciosas orientações à nação sobre como combater tais criminosos, os falsos profetas, os charlatões, os populistas; também, nos ensinou como ajudar, com eficiência mercadológica e ética meritocrática, os pobres e sobrecarregados.

 

 

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