O Apocalipse do Messias

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Estava subindo a escada rolante da Trianon-Masp quando notei uma penunbra na saída. Consultei o celular. Duas da tarde. “Ih, rapaz, vai chover”.

Quando, porém, ganhei a Paulista, quase tive um treco. O céu preto feito noite. Uma sombra negra e densa pairava sobre a cidade. Um vento frio uivava alto, as árvores perdendo folhagem, a poeira subindo e o céu em trevas, como se varada a madrugada.

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Olhei de novo o celular. Duas da tarde. “Cristo, é o fim do mundo”.

No entanto, todo mundo estava numa boa. Jovens e adultos passeando de patinete elétrico na ciclofaixa, os executivos com pressa, as secretárias, em grupinhos, contando fofocas, os hippies com suas miçangas, um grupo de rap dançando no Vão, o trânsito carregado, mas tranquilo, nos dois sentidos. E o céu tenebroso, aves agourentas gorjeando, uns trovões ribombando, como numa peça do Wagner, o vento forte levantando pó.

“Não é possível, é mesmo duas da tarde! Que tempo é esse, Jesus!”

Daí umas nuvens cinzentas romperam. Caíram umas gostas gélidas e grossas. Corri pra um boteco.

De dentro, podia-se ouvir algo que lembrava trombetas. Fiz um profundo sinal da cruz.“Deus do Céu, é mesmo o Apocalipse”

No bar, contudo, a mesma paz. Gente almoçando, alguém comendo coxinha, um casal de estudantes de cabelos coloridos, dois moços ou duas moças, aos beijinhos.

“Não é possível. Devo estar sonhando. O mundo pra acabar e esse povo assim”. Não aguentei.

— Chefia – disse ao garçom –, e esse tempo horroroso, hein? Pô, parece o fim do mundo! Mó breu! Cê é lôco.

Me benzi.

— É, tá feio mesmo – me respondeu com sotaque e ritmo baiano.

Nisso, três cavaleiros, em alta carreira, cruzaram a avenida cada qual montando um bicho, um preto, um amarelo e outro vermelho. Me persignei.

— E como assim o povo tá nessa tranquilidade, homem?? – desabafei.

— Ah, cê não sabe? – disse, me apontando a TV ligada no noticiário. Dali, saía a voz da Leilane Neubarth, da Globonews.

“Especialistas explicam que a nuvem que cobre a cidade se São Paulo na tarde de hoje veio das queimadas promovidas pelo governo Bolsonaro, na floresta amazônica. Autoridades ambientais lamentam o fato, mas dizem que não precisamos nos preocupar. A fumaça deve se dissipar nas próximas horas. Lideranças europeias condenam a atual política de desmatamento do Brasil. Andreia Saddi está em Brasília. Boa tarde, Andreia. Os cientistas dizem que é o fim da floresta, é isso mesmo? Conta aí pra gente”.