Entre a política e a guerra

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Batalha dos Guararapes, Victor Meirelles
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Estamos entrincheirados. Há um sulco profundo cavado entre um lado e outro do país. E isso não tem a ver com política. Estamos em guerra.

A discussão política só serve para debater detalhes, contingências. Coisas como: haverá mais ou menos impostos para jogos de videogame? Nos próximos anos investiremos, prioritariamente, em defesa, educação ou saúde? Seremos aliados ou inimigos da nação vizinha? Venderemos mais açaí ou banana? Todas estas perguntas podem ser levadas à Praça Pública. É o terreno da política.

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A convivência política pressupõe que a comunidade concorde com certas premissas. Antes de qualquer coisa, somos unidos por princípios e valores. Coisas inegociáveis. Por isso que as tradições religiosas, míticas ou reveladas, não importa, são anteriores e servem como base à estruturação do corpo político, são sua alma. Diz-se que não se pode roubar, no Código Penal, pois, muito antes, Moisés ouviu isso da boca de Deus. E isso não se discute.

Se não concordamos com os princípios fundamentais, estes que vem, por assim dizer, do Alto, estamos fora da sociedade. Daí, ou viramos párias e vamos procurar  a nossa turma de marginalizados (hippies, punks); ou viramos revolucionários (comunistas, nazistas) e destruímos a sociedade presente, cujos princípios não nos agradam, para fundarmos uma outra. Para fazer parte do corpo político normal, aquele dentro do qual todos nascemos, há que se aceitar as regras imutáveis do jogo. Depois, podemos fazer política, ou seja, podemos discutir as ninharias.

Se, portanto, debatemos a realidade do feminino e do masculino; se a questão paira em torno do conceito de família, poliamor, pedofilia; se se tem dúvidas quanto a salvar um inocente das mãos de um criminoso, aí saímos do campo político e entramos numa guerra de cosmovisões. Já não nos entendemos no essencial e essas diferenças não serão sanadas na discussão pública ou no dia mágico da eleição – por mais que o liberal-burguês, devoto do Estado de Direito, creia nisso.

O fato de hoje não deixa dúvidas. O Brasil está dividido entre quem acha justo e até bom matar, se necessário, um facínora que, por uns trocados, coloca em risco uma porção de vidas inocentes, e quem, pelo contrário, entende que só cidadãos comuns e policiais podem morrer pelas mãos dos criminosos, a quem consideram as verdadeiras vítimas.

Ainda que não percebamos, ambas posições estão fundadas numa série de pressuposições de ordem metafísica, ontológica, religiosa, moral etc. Numa tal situação, portanto, opiniões pró e contra não são mais meros panfletos de retórica política. São declarações de guerra. Ainda que uma guerra fria e travada, até agora, e pela graça de Deus, só na internet.