Birra no mercado

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Outro dia estava no supermercado escolhendo um dos meus chás Twinings. O treco é de Londres, tradicionalíssimo, uma delícia. Não sei se vocês já provaram, mas aquilo tem um cheiro divinal e o gosto coincide com a propaganda da embalagem. Se camomila, camomila; se limão, limão; se preto, preto. Grande virtude. É mais caro que os outros, porém, vale juntar umas moedinhas.

Todavia o assunto não é chá.

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No que ia pra sessão das carnes, notei uma mulher jovem sentada no chão. Pobrezinha. A bicha estava num choro só. Choro dolorido, desconsolado. Ora lançava os olhos ao céu em sinal de profunda lamentação, ora enfiava a cabeça no meio dos joelhos e chorava abafado, dizendo murmúrios, maldizendo a vida.

Hesitei diante daquela cena. Fiz menção de passar reto. Afinal, pensei, aquilo não era da minha conta, cada um, cada um. Contudo, a mulher estava de fazer pena, e eu não sou de mármore. Cedi:

— Oi, moça. Está passando mal? Quer que eu chame os primeiros socorros?

Nada. Me deixou no vácuo, enterrando ainda mais a cabeça entre os joelhos. Chorava mais baixinho. Soluçava.

— Moça, tá tudo bem? – insisti.

— Me deixa! – respondeu-me malcriada, contendo o choro no olho vermelho.

— Mas, moça, pelo amor de Deus, o que houve?

— Seu idiota – disse com raiva duplicada, o choro engasgado – não vê que estou de castigo?

E abriu o berreiro.

Pensei mil coisas. Como assim uma mulher adulta de castigo, no meio do Carrefour? Me veio à mente um homem bronco, daqueles ignorantes, maus. Num repente dei razão ao feminismo. Me indignei, pensei protestos, me vi liderando movimentos. Aquilo era um absurdo. Como um homem poderia chegar a uma tirania daquela grossura. Que maldade! Que baixeza!

— Quem te botou de castigo, moça? – perguntei enfurecido, com jeito de quem ia pra porrada com o valentão.

Então irrompeu no corredor uma menininha de não mais que seis anos, empurando o carrinho, uma Ana Maria pela metade numa das mãos, beiço sujo de Danone.

— Foi ela, moço! Foi ela!

— Vamos, mãe! Vamo logo que eu não sei a senha do cartão e estou atrasada pro Backyardigans – disse a menina com dedo em riste, batendo os pezinhos calçados de Moleca. — E não te disse pra não falar com estranhos, senhorita!? – encerrou, me mostrando a língua.

A mulher levantou, cabisbaixa, secando lágrimas e catarros com os punhos. Eu fiquei mais uns segundos parado, de queixo caído, avaliando a cena, vendo-as parando no caixa, a menininha na frente.

Enfim, dei de ombros. Fui às carnes.

 

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Helio Fabri Junior

Belíssima cena. Inversão total de valores e total falta de responsabilidade em um mundo de adultos infantilizados. Retrato de muitos pais desorientados de hoje em dia. O mestre Voegelin ensina: “Um povo que não conhece sua história não desenvolve nem a racionalidade nem a moralidade” muito menos a responsabilidade e orientação na vida, desorienta-se, perde-se em absurdidades como essa. coisa de louco? Não humanos irracionais, desumanizados, inconscientes de seu fim na vida.