Por que as soluções amigáveis para o conflito árabe-israelense sempre dão errado

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A rejeição ao Plano de Partilha da Palestina da ONU de 1947 pelas nações árabes e a declaração de guerra dessas nações contra Israel ao invés de sua aceitação da paz, foi o primeiro indício palpável de que o desejo dos árabes nunca foi proporcionar um estado para o povo palestino e sim desde o início o de varrer Israel do mapa. Foto: Pelotão da Legião árabe nas muralhas da Cidade Velha de Jerusalém em 1948. (Imagem: Wikimedia Commons)
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por Tawfik Hamid (Gatestone Institute)
Original em inglês: Reasons Why Peaceful Resolutions for the Arab-Israeli Conflict Always Fail
Tradução: Joseph Skilnik

Nós devemos aplaudir os esforços de Jared Kushner de propor uma solução amigável para o conflito árabe-israelense. Dito isso, a rejeição nada surpreendente dos palestinos ao plano de paz requer uma exaustiva análise, em particular no tocante às verdadeiras causas do eterno fracasso em se alcançar a paz duradoura.

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Sem compreendê-las, toda e qualquer tentativa de resolver o conflito, toda e qualquer tentativa de se chegar à paz verdadeira no Oriente Médio, invariavelmente estará fadada ao fracasso.

Sendo conhecedor da matéria com background tanto muçulmano quanto árabe, eu gostaria imensamente de dividir com vocês algumas observações sobre esse impasse.

1. O conflito árabe-israelense não tem nada a ver com fronteiras. Tem tudo a ver com a existência do Estado de Israel.

Em 1947 o Plano de Partilha da Palestina das Nações Unidas — Resolução 181 — concedeu aos palestinos e aos árabes o controle sobre a maior parte da Terra Santa. A rejeição ao plano pelas nações árabes e a declaração de guerra dessas nações contra Israel ao invés de sua aceitação da paz, foi o primeiro indício palpável de que o desejo dos árabes nunca foi proporcionar um estado para o povo palestino e sim desde o início o de varrer Israel do mapa. Esse espírito destrutivo continua vivo no Estatuto do Hamas, que descaradamente defende a erradicaçãodo Estado de Israel. Essa intenção também está alinhada com os contínuos apelos da liderança iraniana para a destruição de Israel. Uma avaliação sobre as postagens mais relevantes nas redes sociais do mundo árabe demonstra o genuíno desejo de muitos, se não da maioria da população árabe de ver a destruição de Israel e a matança não somente de todos os judeus israelenses, mas de todos os judeus:

Narrador ‘Abdullah bin ‘Umar:
Eu ouvi o Apóstolo de Alá
 (Maomé) dizer: “os judeus lutarão com vocês e vocês os vencerão e uma rocha dirá: ó muçulmano! Há um judeu atrás de mim; Mate-o!” — Sahih al-Bukhari, Volume 4, Livro 56, Número 791

2. A causa do problema NÃO é o território

Após o colapso do Império Otomano várias nações árabes foram criadas por decreto. O mundo árabe aceitou esse estado de coisas numa boa pois se tratava de países de maioria muçulmana. A não aceitação do Estado de Israel tinha a ver com o fato de Israel ser um país judaico e não muçulmano. Na realidade, em várias ocasiões eu perguntei aos árabes muçulmanos (até levantei a questão em um programa na TV Aljazeera) (acesse: 40m44s – 41m04s) se eles continuariam lutando contra Israel se toda a sua população se convertesse ao Islã. A resposta foi um “NÃO” unânime. Minha resposta a isso é sempre: “então o problema não tem nada a ver com território, como muitos alegam, mas com o caráter judaico do Estado de Israel”.

3. Delirante jeito de pensar

Delírios são retratados como ideias fixas que contradizem a realidade. Essa maneira de pensar de muitos no mundo árabe impede qualquer solução amigável para o conflito árabe-israelense. Por exemplo: muitos no mundo árabe acreditam piamente que os judeus são a causa do colapso econômico das nações. Essa visão é desmentida pelo seguinte fato: quando a comunidade judaica fazia parte da engrenagem produtiva do Egito antes da revolução de 1952, a economia egípcia se encontrava em melhores condições do que depois do presidente Nasser ter expulsado os judeus do país. Qualquer ser racional tem condições de ver que, se os judeus são a causa do colapso econômico das nações, a economia do Egito deveria ter melhorado significativamente depois dos judeus serem botados para fora do país. Os delirantes não veem (nem querem ver) essa lógica.

4. Incapacidade da mente árabe em admitir seus erros

Muitos no mundo árabe acreditam erroneamente que Israel expulsou todos os árabes. Na realidade, há quase dois milhões de árabes israelenses que vivem em Israel e são cidadãos israelenses, representando 20% da população. Muitos no mundo árabe tendem a ignorar que foram os árabes que expulsaram os judeus, de forma humilhante, de países como o Egito, Iraque e Argélia. A incapacidade dos árabes em admitir seus próprios erros e crimes contra suas comunidades judaicas são outro obstáculo às resoluções amigáveis para o problema.

5. Teorias da conspiração

Um exame minucioso sobre as mídias árabes e muçulmanas e a avaliação honesta sobre os comentários nas redes sociais no mundo árabe e muçulmano mostram que a rua árabe tende a acreditar que qualquer problema que ocorra no mundo árabe tem de ser obra de alguma “conspiração israelense” ou no mínimo, “não tem como ser culpa dos árabes!” A título de ilustração, quando tubarões atacaram vários turistas na costa do Mar Vermelho do lado egípcio em 2010, muitos árabes, incluindo funcionários do alto escalão antes de mais nada, acusaram Israel de planejar o ataque. Na sequência, a Arábia Saudita capturou um abutre e “acusou” Israel de espionagem. Quando Israel foi acusado de ter adestrado ratos para expulsar os árabes da Cidade Velha de Jerusalém, o premiado jornalista Khaled Abu Toameh ironicamente observou: “não está claro como esses ratos foram ensinados a ficar longe dos judeus, que coincidentemente também vivem na Cidade Velha”.

Essas terríveis autoilusões, que devem derivar de uma sensação de supremacia (ou de inadequação) e a propensão de jogar a culpa de todos os problemas do mundo árabe em cima de Israel em vez de admitir os próprios erros, alcançaram níveis patológicos e autodestrutivos no mundo árabe.

6. Projeção psicológica

A projeção psicológica é um mecanismo mental no qual as pessoas se defendem de impulsos inconscientes que elas podem considerar ser desfavoráveis ou proibidos, negando sua existência nelas mesmas, atribuindo-os a outrem. Por exemplo, uma pessoa que tem desejos que nega em admitir que os tem, irá acusar outros de possuí-los, como a ganância, preconceito ou impulsos sexuais que possam amedrontá-la, é uma maneira de jogar a culpa no outro.

Desta forma, malgrado a gritante discriminação contra as minorias não muçulmanas na maior parte do mundo árabe e muçulmano (negação de direitos iguais para a construção de igrejas, por exemplo), muitos no mundo árabe apontam o dedo apenas e tão somente para Israel quando falam de discriminação.

Seria difícil não mencionar neste contexto que o único lugar que eu me deparei com discriminação em Israel foi na Mesquita Al-Aqsa, por muçulmanos, onde não muçulmanos são proibidos de entrar. (Lamentavelmente, porque os não muçulmanos são vistos como imundos). Por outro lado, eu, com meu background muçulmano, fui autorizado numa boa, a visitar o Muro das Lamentações e a Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém sem a menor cerimônia das autoridades israelenses.

7. Patamares nunca vistos de antissemitismo

Nada melhor para ilustrar o nível de antissemitismo existente no mundo muçulmano do que a declaração de Soad Saleh ao justificar o estupro de judias por muçulmanos: para humilhá-las. Soad Saleh é uma conhecida estudiosa da Universidade Al-Azhar, a universidade islâmica mais conceituada do mundo. Ela é realmente considerada por muitos na rua árabe de ser “moderada”!

Nenhum conceituado estudioso do Islã se levantou contra os perversos pontos de vista dela. Ela permanece no cargo na Universidade Al-Azhar e sequer foi admoestada.

Pareceres bárbaros como estes não se limitam a figuras como Soad Saleh. Infelizmente, uma avaliação minuciosa das postagens nas redes sociais sobre questões relacionadas ao conflito árabe-israelense mostra, sem a menor sombra de dúvida, que essa maneira de ver as coisas está presente em todos os cantos do mundo árabe.

É extremamente complicado, para não dizer impossível, alcançar qualquer solução amigável para o conflito árabe-israelense sem primeiro abordar esse antissemitismo impenitente no mundo árabe e muçulmano.

8. Falta de Pragmatismo

Outro fator que impede qualquer solução amigável para o conflito árabe-israelense é a falta generalizada de pragmatismo no mundo árabe. A título de exemplo: apesar dos inúmeros benefícios econômicos obtidos pelo Egito decorrentes do acordo de paz com Israel (como a devolução da Península do Sinai e a volta ao acesso ao Canal de Suez, ambos benéficos tanto para o comércio como para o turismo), muitos egípcios e árabes de outras nações continuam repudiando o acordo, se recusando a seguir a via pacífica do presidente Anwar Sadat. A resistência árabe à paz com o povo judeu, apesar dos benefícios econômicos resultantes dos Acordos de Camp David, foi claramente demonstrada quando dezenas de milhares de egípcios atacaram e incendiaram a embaixada israelense no Cairo.

Esse tipo de abordagem que bate de frente com o pragmatismo quanto ao problema, será eternamente um obstáculo para a solução do conflito somente por meio de incentivos econômicos.

9. Fatores Ideológicos

A profunda convicção ideológica abraçada por muitos muçulmanos segundo a qual eles TÊM O DEVER de lutar contra os judeus antes do fim dos tempos e matar todos eles é outro grande obstáculo para se alcançar a verdadeira paz no Oriente Médio. É importante notar que tal convicção se baseia principalmente nas hádicesdo profeta Maomé e não no próprio Alcorão.

10. Falta de Leitura Reformadora do Islã

As interpretações tradicionais do Islã tendem a limitar os versos que falam de maneira positiva sobre o passado dos judeus e, contraditoriamente, generalizam os versos críticos aos judeus em situações específicas.

Exemplificando: muitos muçulmanos entendem o verso a seguir como sendo limitado ao passado: “ó israelitas, recordai-vos das Minhas mercês com as quais vos agraciei, e de que vos preferi aos vossos contemporâneos” (Alcorão 2: 122). Diametralmente oposto o verso que foi usado para chamar todos os judeus de “porcos e macacos” na realidade se limitava apenas a um grupo específico dos Filhos de Israel que se recusava a obedecer a Torá num contexto específico em um determinado momento e em um determinado lugar. Sem entrar em sofisticada análise teológica, o ponto chave é que se esses versos fossem interpretados de outra maneira, de modo que o primeiro verso não se limitasse ao passado e o segundo fosse visto em seu contexto histórico, as relações árabe-israelenses seriam muito melhores hoje.

11. Educação

Visto que o preconceito contra os judeus começa em casa, não é como se isso aparecesse só no primeiro dia de aula, as crianças em muitos países do mundo árabe e muçulmano são alimentadas goela abaixo com um currículo que fortalece esses preconceitos. A título exemplificativo: ao passo que os livros escolares sauditas baniram recentemente toda e qualquer influência da Irmandade Muçulmana, não aconteceu o mesmo em relação aos preconceitos antijudaicos, anticristãos e antisufistas.

Ilustrando: o livro escolar saudita hádices (as palavras e ações atribuídas ao profeta Maomé) do ano letivo 2016/2017, “alega sem fundamento algum que o sionismo ambiciona subjugar o mundo a um governo judaico global“. (Isso é pura projeção: dominação mundial é o que o Islã salafista aspira; não o judaísmo).

Basicamente os livros escolares dos palestinos não são muito diferentes disso. A União Europeia está financiando um estudo sobre os livros didáticos palestinos porque vieram à tona evidências descobertas pela organização não governamental IMPACT-se, que constatou em maio que “o novo material escolar palestino para o ano letivo 2018/1919… é ” ainda mais radical do que o de anos anteriores”.

“O mais preocupante”, segundo a ONG, é que “há uma inserção sistemática da violência, do martírio e da jihad em todas as séries e matérias de uma maneira mais ampla e sofisticada…”

Enquanto isso ninguém está sendo educado para a paz.

Se somarmos a isso a triste realidade que os políticos palestinos usam o conflito para obter bilhões de dólares em doações, dá para entender o porquê desse conflito não ter sido resolvido até agora.

Dr. Tawfik Hamid, autor de Inside Jihad: How Radical Islam Works, Why It Should Terrify Us, How to Defeat It, é Ilustre Colaborador Sênior do Gatestone Institute.