Polarização e plebiscito: como será 2022? (Parte 2)

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Guilherme Hobbs

“A única forma natural de expressão da vontade das massas é o plebiscito, isto é, voto-aclamação, apelo, antes do que escolha. Não o voto democrático, expressão relativista e cética de preferência, de simpatia, do pode ser que sim pode ser que não, mas a forma unívoca, que não admite alternativas, e que traduz a atitude da vontade mobilizada para a guerra.”
Francisco Campos, 1935.

Na democracia moderna, de massas, a eleição tende naturalmente a um plebiscito binário, entre aprovação ou negação radicais, sobre o governo do momento. Num país desenvolvido, consolidado, sem ameaça revolucionária, essa tendência pode ser atenuada rumo a um debate enriquecedor entre várias alternativas. Mas — sinto informar — estamos no Brasil de 2019 . . . Estamos num pedaço da Terra com – não é demais lembrar – maioria esmagadora de analfabetos funcionais, instituições inoperantes e desacreditadas, o PT de posse da segunda maior bancada na Câmara e todos nós à espera da próxima crise que quebrará o que restou da economia. A eleição, num deserto brabo desses, só pode ter como objetivo exaltar algum Messias salvador.

Esse messias já se manifestou entre nós e seu nome era Lula. Impossibilitado de concorrer, foi o eleitor mais importante, com o dedo indicador bem gordo, em 2018. Enquanto a eleição de Bolsonaro foi o produto de milhares de fatores e esforços diversos, a chegada de um tal de “Andrade” ao segundo turno foi o resultado da vontade de um só homem, desde atrás das grades. Não existe oposição articulada ao lulismo dentro da esquerda, nem elasticidade na cabeça automática da militância para que tal oposição floresça. Não tem jeito: O Napoleão exilado e enjaulado terá o seu homem no segundo turno, seja lá quem for.

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Todas as eleições presidenciais desde 2006 foram plebiscitos sobre o lulismo e 2022 não será diferente. E todas essas eleições foram plebiscitos previsíveis, com o sim ou não ao PT já definido na véspera. Quanto a 2022, só uma catástrofe poderia mudar: não há chance de um ungido do PT subir ao poder. Como disse na parte I, a esquerda estará em frangalhos politicamente – o que não é dizer que estará fraca socialmente. Aliás, terá força mais que suficiente para impor medo a seus adversários e se colocar à espreita e à espera.

Essa polarização estanque, vermelhos contra verde-e-amarelos, afunila o debate dentro da direita e arma os espíritos, pois só um, 01 (hum), candidato “patriota” pode fazer frente eficazmente ao inimigo. Não há espaço para dois ou três heróis quando o adversário vem logo atrás. Como direitistas em geral se invejam e se desprezam entre si — o que a esquerda tem de servilismo, a direita tem de presunção –, a margem para debates arejados, novidades e reavaliações é estreita e o caminho é linear, ao menos nessa grande bolha, para o triunfo daquele que souber se apresentar como o Escolhido, como o único em reais condições para golpear de morte o dragão vermelho da maldade.

Mas, por que este será Dória, o “marqueteiro” de si mesmo, já tão queimado com seus eleitores? Ora, não sou burro para pensar que ele poderá vencer levado numa torrente de entusiasmo espontâneo, como fez o “mito”. É óbvio que não será nada parecido. Ele vencerá porque saberá convencer que ele, só ele, pode livrar o Brasil da ameaça vermelha naquela eleição. Vencerá pelo medo, pelo espelhamento com o adversário, por ser o azul diante do vermelho, por se mostrar como a única salvação factível no momento. Vencerá por dar segurança, e não novidade. Também vencerá pelo grande desempenho de ator nos debates. Melhor que ele diante das câmeras, talvez só a enciclopédia do Cirão — que é carta velha e já fora do baralho. Basta imaginar um debate entre Dória e Marcos Feliciano para entender do que estou falando . . .

Dória começará a campanha prometendo manter Moro e Guedes — seus “grandes amigos”, dirá — firmes em seus postos e se apresentará como um melhoramento, uma consolidação do governo Bolsonaro, não uma ruptura. Um governo Bolsonaro sem Jair — “mas que nome de pobre!” –, zero-um, zero-dois, “olavistas”, “religiosos”, “anti-globalistas” et cetera — como tantos já sonham, desejam e o confessam publicamente. Um governo Bolsonaro sem tanta “ideologia”. Um governo de resultados, “técnico”, focado “no que mais importa”, a economia — ou seja, a velha cara enrugada do PSDB, agora reeditada pelo botox “conservador nos costumes e liberal na economia”.

ALEA IACTA EST!*

(*A sorte está lançada)
 

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marcosGuilherme Hobbsxx XX i Autores de comentários recentes
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xx XX i

Cade a parte I? deixa um link aí antes da matéria.

Guilherme Hobbs
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Guilherme Hobbs
marcos
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marcos

A segunda parte e ainda pior que lixo.