Ne me quitte pas com Red Label

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Que se dane. Não vou buscar a merda do remédio. Pra quê remédio? Acabou. Já têm dias que não posso levantar. Não que esteja aleijada, nem nada me quebrou, tenho até um corpo firme, saudável, bonito, apesar da palidez da anemia. Ando verde de fome. Só isso. No entanto não consigo levantar.

Já não ouço nada que me anime do lado de fora desse maldito quarto. O pai morreu de catarros, a mãe eu larguei no mato. Marido não quis, apostei na firma. Do lado de fora não escuto mais os meninos do futebol. O parquinho do prédio anda às moscas.

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De que valeu esse diploma que me encara, dia e noite? Odontologia na prestigiada Unesp. Parabéns. Nunca abri uma boca humana. Não tive coragem. Fiquei meses de cama por isso. Mamãe me deu toda força, contudo, como sempre, a decepcionei. E foi assim no colégio, no ballet, no intercâmbio que abandonei, em tudo o mais. Sou um grande fiasco. Pra quê remédio? Aos 30? Remédio? Que se dane.

O único problema é esse fedor. Odeio feder assim. Estou que não posso me mexer. Exala um cheiro horrível. Meu bafo me dá engulhos. É a placa bacteriana me corroendo dentes e gengiva. Vi isso na faculdade. Que ironia. De resto estou grudenta, uma inhaca, fedendo. Queria levantar, mas não posso. Queria um banho, quem sabe um lanche. Mas pra quê?

Já prometi que deixaria de me dar esperanças. Não preciso disso, nem de mãe, nem de sucesso, nem de banho ou de comida. Preciso é morrer.

Meu quarto está uma zona. Só agora sei o quanto fumo. Há tanta bituca no chão. Mas, que se dane, esse pulmão não pára. Pois fumaria muito mais se pudesse me levantar, entretanto, estou presa a essa merda de cama fedida. Não tenho noção de quanto tempo se passou desde que caí aqui, bêbada, vomitando. Porre de Red Label, coisa chic.

Naquela noite tive alguma esperança. Era nosso segundo encontro. Rapaz gente fina, bonito. O mais bonito do Tinder. A primeira noite foi um tesão. Há tempos não me pegavam daquele jeito. Me apaixonei. Na segunda fui dispensada. Fiquei no bar. Há tempos não arriscava sair com alguém. Queria curtir a noite, nem que sozinha. Gastei os tubos com Red Label. Lembro que tocava a versão mais triste de “Ne me quitte pas”, com o próprio Brel, minha predileta. Ironia. Saí de lá querendo uma ponte, uma corda. Nem pra isso servi.

Agora estou atada a essa cama imunda, nesse quarto mofado, com essa boca seca fedendo e lá fora só esse silêncio rompido de quando em quando pelos aviões que eu sempre acho que vão cair aqui. Como seria bom se caíssem. Porquanto não consigo levantar, e aqui não consigo morrer.

Não. Não vou pegar outra cartela dessa droga que me engana sobre quem eu sou. Eu sou isso. Esse fracasso, esse vazio, esse fedor.

Não vou mais disfarçar. Eu sou isso e não há Deus que me console.

Estou decidida. Não vou mais pegar o remédio. Acabou. Fico aqui lançada à minha sorte. E que se dane. Adeus.