Banquete de Abutres: a convergência das ações marxista-leninista e o radicalismo islâmico

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Existe um erro estratégico que se revela mortal à nossa sociedade: ignorar a convergência entre distintas linhas ideológicas radicais, caracterizadamente narcoterroristas, voltadas ao domínio cultural e político. Uma verdadeira guerra configurada pela interdependência entre facções marxistas, grupos terroristas islâmicos e criminosos comuns, sem desconsiderar o apoio ou envolvimento direto de governos afins a estas linhas ideológico-culturais.      

Essa convergência potencializou a capacidade de abrangência do crime, do terror e de ações políticas contra a ordem democrática em nome de uma nova ordem guiada por uma elite político-religiosa.  O poder e a violência destes grupos narcoterroristas é proporcional ao envolvimento de governos sob o fenômeno coletivista e totalitário (PULIDO, 2017). Um modelo que se sustenta pelo desvio de recursos públicos e pela economia do crime: tráfico de armas e drogas, contrabando, lavagem de dinheiro, corrupção, etc. 

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Ou seja, pode-se traçar uma linha a partir do ato criminoso local até este emaranhado perverso de terror. O vendedor de drogas ou produto falsificado em uma esquina ultrapassa o interesse policial para ser encarado como parte de um problema estratégico de defesa de toda uma Nação. Eis a identificação da ponta de um processo que liga ações políticas, a produção de coca, o contrabando de cigarros na América do Sul e na África, a plantação de papoula na Ásia e Oriente, desvio de recursos destinados a ações humanitárias, extorsão, lavagem de dinheiro, comércio de armas para as guerras na África, banqueiros e escritórios de negócios da Bolsa de Valores e, até mesmo, a circulação de dinheiro ilícito em apostas esportivas on-line e desvio de medicamentos ou sua falsificação (AMORIM, 2003, Pg. 25; NEUMANN, 2018).

  A aproximação entre o islamismo e o marxismo-leninista ocorre por  similaridades que ultrapassam a superioridade moral que julgam possuir: 

  1. Propõe a ocupação da cultura vigente submetendo-a à nova cultura, por conseguinte, a um Estado totalitário condutor da sociedade e seus desejos;
  2. Pressupõe a presença da religião como guia, (Nos distintos modelos seja marxista-leninista ao gramscista pretende-se a transformação da sua doutrina em uma espécie de religião que possui no Partido que governa e na elite de governantes a sua fonte espiritual); 
  3. O radicalismo religioso propõe a regulação religiosa como forma de equilibrar igualmente a sociedade e estabelecer o mantra inebriador da “justiça social”, já no socialismo e comunismo o Estado age para impor estas pretensões; 
  4. Eleição de inimigos comuns como: Estados Unidos, Israel, a cultura ocidental em geral; 
  5. Todos os meios, legais e ilegais, são válidos para impor seus objetivos contra os infiéis e/ou burgueses.

Contudo, estes pontos em comum não atingem o cerne de cada uma das ideologias já que para um lado Deus está no paraíso e deve ser obedecido através da interpretação dos líderes terroristas, para outro o paraíso é aqui e o homem revolucionário, diga-se o também o criminoso, é a própria encarnação de Deus na sua luta pela justiça totalitária. Esta diferença, porém, fica em suspensão até que os objetivos comuns sejam alcançados: destruição dos fundamentos e da organização da sociedade ocidental.

Um segundo elemento a ser considerado é a economia do crime que este modelo cria para sustentar suas pretensões. O uso de produtos ilícitos com fins econômicos como estratégia já era visto na ação comunista na década de 50, que encontrou no tráfico uma forma de minar a estrutura moral, social e política de seus oponentes ao mesmo tempo em que nele encontrou fonte de financiamento (DOUGLAS, 1990).  De outra forma, vê-se que leis religiosas muçulmanas proíbem o uso de drogas, porém, a interpretação dada por líderes narcoterroristas ao seus seguidores é de que o uso destas para destruir os infiéis é legítimo (NEUMANN, 2018).   

Fica muita clara a implantação estratégica de utilização de drogas como financiamento de ações políticas quando se analisa da realidade sul-americana. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), um grupo de orientação marxista-leninista que foi o braço armado do Partido Comunista Colombiano (hoje alçado à condição de partido político) e membro do Foro de São Paulo, mantém o monopólio do tráfico de cocaína na América do Sul. Claro que este grupo narcoterrorista não restringe sua economia criminosa à cocaína.  Está envolvido também com extração de minerais como o tungstênio, com a cobrança de taxas sobre mineração ilegal de ouro, com extorsão de pequenos agricultores, lojistas, empresas multinacionais e com atua no contrabando de cigarro na tríplice fronteira do Brasil, Argentina e Paraguai, ou seja, as drogas representariam entre 25% a 50% de seu faturamento (NEUMANN, 2018, Pg. 74). 

Um destaque de ser feito sobre as Farc, justamente o seu discurso de luta por reforma agrária e anti-imperialismo é que manteve o disfarce para seu modelo criminoso de financiamento (NEUMAN, 2018, Pg. 55), bem como, continua a encobrir os horrores praticados pelos narcoterroristas como aqueles apontados, por exemplo, no site da Corporação Rosa Branca formada por suas vítimas. Este grupo percebe que o suposto acordo de paz com as Farc é uma marca da impunidade e prêmio aos violadores.   

Então, chega-se às relações das Farc com radicais islâmicos como um modelo de convergência criminosa em busca de poder. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos, já na década de 90, identificava que o tráfico de drogas da América do Sul passou a utilizar a África Ocidental como rota para chegar à Europa. Está logística foi possível com a aproximação das Farc com Al Qaeda (BRONSTEIN, 2010).  

Também, destaca-se a sua relação com o Hezbolah atuando no contrabando de cigarro na América do Sul. Para o Hezbolah o cigarro é uma fonte de renda que garante a compra de armas, o recrutamento, treinamento, a manutenção do paternalismo estatal em seus territórios, além disto, respalda o fornecimento de alimento, medicamento, assistência médica e energia elétrica para a população xiita no Líbano.  Nota-se que o contrabando de cigarros aproxima-se do lucro produzido pela cocaína, porém com menores riscos já que a pena pelo crime é mais leve (NEUMANN, 2018 Pg. 32 e 35; NEUMANN e PAGE, 2018).   

Observa-se, enfim, a uma outra fase de convergência na medida em que tais grupos se associam a governos que adotam o discurso anti-imperialista como o chamado “Socialismo do século XXI” trazido pelos irmãos Castro e o Foro de São Paulo, e, por fim, abraçado por Hugo Chávez na Venezuela. O Chavismo, então, reúne as Farc e Hezbollah para o intercâmbio de conhecimento em ações terroristas, bem como faz do crime uma fonte de financiamento (COUTINHO, 2018; NEMANN 2018, Pg. 84). 

Hugo Chávez, neste conluio, dentre inúmeras ações:

  1. Criou uma rota de voos semanais entre a Venezuela e Irã nos quais analistas acreditavam circular terroristas, armas e drogas (NEMANN, 2018). 
  2. Manteve um escritório das Farc junto ao Forte Tiuna, um centro gestor do Ministério da Guerra da Venezuela (PULIDO, 2018). 
  3. Reforçou o poder do Cartel dos Sóis com militares venezuelanos e lideres das Farc (NEUMANN, 2018, Pg. 92; MALAVER, 2015);
  4. Envio de cocaína para os cartéis mexicanos (PULIDO, 2013; COUTINHO, 2018; NEUMANN, 2018). 
  5. Utilizou a estrutura portuária de Puerto Cabello: “para escoar drogas e fornecer armas para as Farc em troca de cocaína […] (NEUMANN, 2018, Pg. 92);

É neste contexto que se pode aprofundar os efeitos da convergência macabra na condução de um governo. O chavismo submeteu os poderes legislativo e judiciário, desacreditou as polícias, estimulou a corrupção, corroeu a economia interna e o tecido social Este modelo de narcoestado socialista fez saltar o número de 19 homicídios por 100 mil habitantes em 1998 (início do governo Chávez), para uma taxa de 81 homicídios por 100 mil habitantes ao ano de 2018 (BRISEÑO-LEÓN, 2006; PEREIRA, 2019) (COUTINHO, 2018; NEUMMAN, 2018).

Porém, para o especialista no estudo das Farc Villamarín Pulido (2013, Pg. 269-282), as conexões presente neste modelo disfuncional vão além do governo de Hugo Chávez. O largo apoio de governos, direto ou indireto, fica demonstrada no ano 2008, quando da apreensão do computador de Raúl Reys comandante das Farc, em uma operação entre a fronteira da Colômbia e Equador. No seu conteúdo de mensagens comprovou-se o apoio político de governos da América do Sul da época (EL TIEMPO, 2008).

Os prejuízos causados por está estratégia é extenso.  O Relatório Mundial sobre Drogas 2017 ratificava que a economia do crime tem um efeito desastroso para um país a médio e longo prazo, na medida em que ocorre o ingresso de dinheiro na economia local até se pode ter um impulso na circulação de investimentos, porém, isto significará uma interferência nas esferas da administração pública através da corrupção, no mercado com a inflação de preços de imóveis, gerar a concorrência desleal e, por fim, a inibição de investimentos de empresas que queiram investir de forma legítima (UNODC, 2017, C1, Pg. 23).   

Contudo, o ponto crucial desta ampliação de horizonte é o conhecimento capaz de, primeiramente, mostrar a convergência criminosa e seus efeitos sobre o crime cotidiano e, no passo seguinte, mostrar que pela ignorância ou banalização de sua existência abre-se as portas para o terrorismo tomar conta do Estado. A simples relação lógica das causas dos homicídios em um país com a economia do crime, na extensão aqui apresentada, bastaria para perceber que se está condenando à morte o cidadão ao se ignorar este projeto de Poder que é um verdadeiro banquete de abutres. 


BIBLIOGRAFIA

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