Cinema e criminosos no Brasil: um fenômeno inusitado

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Foto: Reprodução
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Cinema e criminosos no Brasil: história de Suzane Von Richthofen será retratada no filme.


O cinema brasileiro tem, ao longo dos anos, levado às telas as vidas de criminosos cujos atos bárbaros provocaram alarde social.

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São exemplos: Lampião, Lúcio Flávio, Carlos Marighella dentre vários outros.

A mais nova produção se refere à homicida Suzane Von Richthofen e seu comparsa Daniel Cravinhos. [1] A criminosa simplesmente planejou friamente e executou a morte de seus próprios pais, gerando grande comoção social na época, a qual perdura até hoje, ao menos para as pessoas com um mínimo de sentimento ético.

Não há dúvida de que os atos criminosos e as vidas violentas de pessoas dessa espécie são realmente capazes de ensejar bons roteiros cinematográficos. Não se pretende, de forma alguma, considerar ou apregoar que esses casos não acabem realmente se transformando em filmes e ocasionem, inclusive, interesse nos espectadores. Mesmo porque não é somente no Brasil que são feitos filmes sobre criminosos e suas “façanhas” inauditas e abjetas.

O grande problema que se verifica e é característico não só do cinema, mas em geral (com exceções, é óbvio), da classe artística brasileira e de boa parte da nossa intelectualidade, bem como de pessoas ligadas de alguma forma à “cultura”, é o fato de que essas produções têm foco praticamente total nos criminosos. Os artistas que fazem o papel do criminoso são o grande destaque do filme. Os agentes da Polícia, do Judiciário, Ministério Público, são normalmente retratados como indivíduos estultos, abrutalhados, quando não até mesmo verdadeiros carrascos e corruptos. Enquanto isso, os criminosos são retratados de forma heroica e são buscadas, a qualquer custo, as motivações do crime, nunca para as descrever em sua torpeza, mas como formas de “compreender” empaticamente a conduta criminosa. Isso é algo que dificilmente ocorre em outras terras. Criminosos cruéis são assim retratados e Policiais e agentes da Justiça como heróis. E o principal: as vítimas são apresentadas, fora do Brasil, como vítimas nos filmes. Aqui, no mínimo, são colocadas numa situação de dúvida quanto à sua provocação, senão como as verdadeiras precipitadoras e autoras indiretas da ação criminosa. As pessoas que se escandalizam com os crimes são também apresentadas ao público como hipócritas ou indivíduos incapazes de uma compreensão mais ampla do mundo e da humanidade. Somente o criminoso é justificado do início ao fim. Esse fenômeno é por demais marcante em muitas produções nacionais e não é de duvidar que o filme sob comento também trilhe essa espécie de caminho tortuoso e nefasto.

A cultura nacional, por meio do cinema e outras obras, cria um imaginário que glamouriza o criminoso e transforma todos os demais personagens em imbecis, brutamontes, insensíveis, covardes, hipócritas etc. O que pode um imaginário cultural desses produzir em nossa população, em especial em nossa juventude?

Pode produzir o que já vemos nas ruas, nas escolas, nas famílias, nas universidades e por todo canto. Uma grande massa de pessoas sem pudor, sem limites, egoístas e hedonistas, formadas num caldeirão cultural de barbárie.

Carvalho já nos alertava há muito tempo sobre a “idealização da malandragem, do vício e do crime” como criadora de “uma atmosfera favorável à propagação do banditismo”. [2]  E prossegue:

“(…), o assassino então já não aponta contra nós apenas o cano de uma arma, mas o dedo da justiça; de uma estranha justiça, que lança sobre as vítimas culpas por erros de uma entidade abstrata – ‘o sistema’, ‘a sociedade injusta’ – , ao mesmo tempo em que isenta o criminoso de quase toda a responsabilidade por seus atos”. [3]

Efetivamente, não se pode esperar muito de um país, de um povo e de uma sociedade moldados nesse clima cultural e imaginário. Esperemos que um milagre aconteça ou haverá pessoas se emocionando nos cinemas, não pelo fato concreto de que dois pais foram mortos brutalmente por uma filha, mas por misericórdia com relação a essa sofrida órfã que passa seus dias na prisão, da qual somente sai, ainda com obrigação de retornar, em datas festivas como, por exemplo, o dia dos pais e o dia das mães!


REFERÊNCIAS

CARVALHO, Olavo de. Bandidos & Letrados. In: IDEM. O Imbecil Coletivo. Volume I. São Paulo: É Realizações, 2006.

HISTÓRIA de Suzane Von Richthofen será retratada no filme “A menina que matou os pais”. Disponível em https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2018/07/18/historia-de-suzane-von-richthofen-sera-retratada-no-filme-a-menina-que-matou-os-pais.ghtml, acesso em 27.06.2019.

[1] HISTÓRIA de Suzane Von Richthofen será retratada no filme “A menina que matou os pais”. Disponível em https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2018/07/18/historia-de-suzane-von-richthofen-sera-retratada-no-filme-a-menina-que-matou-os-pais.ghtml, acesso em 27.06.2019.

[2] CARVALHO, Olavo de. Bandidos & Letrados. In: IDEM. O Imbecil Coletivo. Volume I. São Paulo: É Realizações, 2006, p. 161.

[3] Op. Cit., p. 171.