Um livro contra as Fake News

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A imprensa, que surge no século XV com a promessa de popularizar o conhecimento e o acesso às informações, até então restritas a pequenos círculos de ricos e letrados, ao mesmo tempo se torna um veículo de controle de narrativas, de massificação do pensamento, de universalização da mentira.

Toda a história do ocidente moderno, nos seus recortes políticos, econômicos, religiosos, estéticos etc., deve levar em conta a influência dos grandes canais de mídia que, desde o começo, sempre estiveram nas mãos, não da massa popular, sua pretensa beneficiária, mas de alguns poucos que possuíam os meios de bancar suas operações.

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Decorre disso que a imprensa se tornou, nos últimos séculos, um Quarto Poder e isso, sobretudo, no XX, quando se criou meios de propagação de larguíssimo alcance, como o rádio e a TV. Daí para frente a mídia de massas passou a ser a menina dos olhos de quem quisesse impor-se política, econômica ou culturalmente nos países ocidentais ou ocidentalizados – o quer dizer, quase a totalidade do planeta.

Acontece que no início desse nosso século, a internet rompeu com a hegemonia da mídia tradicional que, desde Gutemberg, vinha impondo às populações indefesas os arbítrios e desejos do político ou do grande magnata que tivesse poder suficiente para governar a mente e a pena de escritores, jornalistas, roteiristas, diretores e todo esse universo que o filósofo Olavo de Carvalho apelidou como o Coletivo das Redações.

E essa ruptura desfraldou um conflito outrora velado, porque unilateral – só a grande mídia, detentora dos meios, atacava, mentia e oprimia o povão que, desarmado para uma tal guerra, ou aceitava resiliente o que se lhes impunham como a verdade patente, ainda que seus olhos de cidadão comum não pudessem atinar com aquilo no mundo dos fatos, ou ficava desinformado, alheio a tudo que ocorria no mundo para além do seu muito restrito campo de visão.

Daí que a internet seja o campo de batalha nesse confronto da mídia versus o povo, aquela sendo representada pelas grandes empresas de comunicação, com todo seu gordo poder econômico, seu sofisticado aparato técnico, seu time de medalhões da comunicação e todo um exército de novos jornalistas que se criam nas universidades, ano a ano, todos prontos a manterem a tradição hegemônica da grande mídia e estoutro, o povo, que tem se informado por sites e blogs outsiders, correntes em aplicativos de mensagens e postagens nas redes sociais em geral. É um verdadeiro Davi contra Golias.

Nesse embate franco, as primeiras grandes vitórias do povo foram algumas surpresas políticas como o sim no Brexit, a eleição de Donald Trump e a vitória de Jair Bolsonaro. Todos fenômenos gestados, nascidos e desenvolvidos nas redes sociais.

Esses eventos, entretanto, fizeram com que se ligasse as antenas de alerta dos poderosos da mídia. E o contra-ataque veio, primeiro, com a categorização de tudo que não vinha da mídia oficial como fake news – termo popularizado por Trump justamente para classificar atuação da grande mídia norte-americana na corrida eleitoral que o levou à Casa Branca. O segundo passo foi lançar as fact-checking, agências de checagem, pretensamente isentas, que iriam dizer o que é e o que não é verdade na internet.

Nem uma coisa nem outra, até agora, funcionou. Os dois lados seguem entrincheirados e não há o menor sinal de trégua de parte a parte.

Por tudo isso é indispensável e leitura do novo livro de Cristian Derosa Fake News: Quando os Jornais Fingem Fazer Jornalismo. O autor, mestre em Fundamentos do Jornalismo, explica com detalhes a crise que a grande mídia tem enfrentado nesse novo contexto.

Um dos motivos temáticos do livro é o artigo The Science of Fake News, publicado na conceituosa revista Science. No artigo de múltiplos autores, fica clara a tentativa de relacionar o fenômeno das fake news com os movimentos populares que na Europa e EUA se levantaram em reação aos malefícios políticos, culturais e espirituais do globalismo – sustentado ideologicamente pelos grandes canais de comunicação. Para os autores, notícias falsas sempre existiram, mas, agora, e só agora, tem uma versão “politicamente orientada”.

No entanto, nem os autores do artigo nem a grande mídia, preocupadíssimos com a credibilidade e a orientação política das notícias, parecem ter se engastado com a declaração de Fernando de Barros e Silva, da Revista Piauí, que confessou em um podcast ano passado que a linha editorial da Folha de São Paulo iria no sentido de “prejudicar Bolsonaro fingindo fazer jornalismo” – frase emblemática que ganhou sua homenagem como subtítulo da obra de Derosa. Tampouco houve indignação com a confissão de Constança Rezende, do Estadão, de que estava cobrindo o caso Queiroz para arruinar o governo Bolsonaro.

Nas palavras de Cristian, um dos objetivos da sua obra é justamente demonstrar que, se existem notícias falsas na internet, dessas clickbait, de coloração sensacionalista, produzida por canais independentes – e isso, sem dúvidas, existe – há, por outro lado, uma massa densa de fake news meticulosamente produzidas pela mídia mainstream para emplacar essa ou aquela agenda político-ideológica ou para menoscabar esse ou aquele grupo que lhes pareça hostil.

O interessante é que ele demonstra, em uma abordagem histórica do jornalismo, que até certo momento havia alguma conexão entre a mídia de massas e o povo. Os penny press, o jornalismo de centavos, foi muito popular em várias partes do mundo. Inclusive, grandes jornais atuais, que vociferam contra a liberdade de se informar na internet, como o The New York Times, tinham nas suas origens exatamente esse modo de noticiar mais ao gosto do populacho. Os penny press seriam como o nosso Notícias Populares, periódico brasileiro que fez sucesso nos anos 70 e 80 e que encerrou as atividades em 2001, conhecido por suas capas chamativas, exageradas, com títulos como Nasceu o Diabo em São Paulo. É o tipo de jornalismo apelativo, feito para vender fácil e barato para um público que não esteja lá tão interessado na verdade cabal dos fatos.

Esse tipo de jornalismo existe hoje nos sites caça-clique. Esses canais geralmente criam um título extravagante para ganhar o acesso, o clique, sem se preocupar com a veracidade da informação. E esse é um tipo de conteúdo que circula velozmente nas redes sociais, sobretudo em correntes do WhatsApp.

No entanto, a grande mídia de hoje, que também teve seu início com o penny press (que Cristian chama no livro de Jornalismo Sensacionalista), para se manter economicamente teve de migrar para o jornalismo de assinaturas. A ideia era produzir conteúdo de melhor qualidade para um público selecionado que estivesse buscando meios de se informar com credibilidade (a essa modalidade ele chama Jornalismo Integrador, antítese do anterior). Entretanto, esse modelo, para vingar, teve que apelar para os grandes empresários, para ricos patrocinadores, para os governos. Daí que a mídia, como diz Cristian, “acabou trocando o patrão popular pelo patrão empresarial e governamental, rendendo-se às grandes agendas funcionalistas da transformação social”.

Quer dizer, há potencialmente fake news de ambos os lados, na grande mídia e na mídia independente – ainda que os guardiões da moralidade jornalística, que falam desde suas bancadas no horário nobre para milhões de pessoas, nunca admitam a possibilidade de que eles mesmos as produzam, e aos borbotões.

Diz Cristian:

“Hoje, os herdeiros do jornalismo integrador são o politicamente correto, os proponentes de uma Nova Ordem Mundial, a Globo, a Folha, para os quais o jornalismo tem a função de transformar a sociedade através da conscientização e promoção da cidadania. O tipo sensacionalista marginalizou-se e migrou para a internet, encontrando refúgio em blogs e páginas de Facebook”.

Entretanto, no atual contexto, a internet, ainda que produza aos montes o jornalismo de centavos e o caça-cliques, é uma terra de liberdade na medida em que é melhor a possibilidade de escolher entre milhares de meios de informação, muitos dos quais pouco ou nada confiáveis, do que se submeter aos caprichos de meia dúzia de grandes grupos que se reúnem e pautam a percepção de um país inteiro em torno de algum fato para que um ou dois poderosos se saiam favorecidos.

Ademais, há uma série de boas empreitadas na mídia independente, sites e blogs que não caem nem na tentação sensacionalista e nem na venda de consciências para o patrão rico ou político influente. E essa é a conclusão razoável a que chegamos com a leitura da obra de Cristian Derosa.

Portanto, o tema central da obra são as fake news. O autor descreve o fenômeno, investiga suas causas e analisa como esse termo chave – as fake news – se articula nessa contemporânea guerra de narrativas que se dá entre o povo e a grande mídia.

Mas o assunto não se esgota aí. Como eu disse no prefácio dessa obra que tive a honra de escrever, “desde esse eixo-motivador [as fake news], o autor analisa também: as diferentes maneiras de se fazer jornalismo; as técnicas de contextualização e como elas podem servir de instrumento à manipulação do público; a utopia da “era das informações” na crise do mundo ocidental; o drama da espiral do silêncio; as relações entre o ambiente social e a criação de notícias; os usos da autoridade científica para fins escusos no jornalismo atual; e as palavras-gatilho usadas pelos jornalistas tendenciosas para inibir não só nossas ações, como nossos sentimentos e até pensamentos”.

Tudo com o olhar de quem conhece o assunto na teoria e na prática.

Além de tudo isso, o livro se torna ainda mais importante uma vez que é o primeiro estudo sério que se faz desses fenômenos fora dos círculos de influência da esquerda acadêmica. Quer dizer, é a primeira reação qualificada, à direita, em um debate até aqui uníssono, já que representantes do establishment universitário e midiático, com todo o aparato técnico e financeiro a seu favor, tem produzido freneticamente livros, teses, artigos, documentários, reportagens e tudo o mais para reforçar o estereótipo distorcido de que só a “extrema direita”, “os conservadores”, os “bolsonaristas” etc., produzem notícias falsas na internet.

Enfim, Fake News: Quando os Jornais Fingem Fazer Jornalismo, é uma obra que merece leitura atenta por todos aqueles que amam a liberdade de expressão que as redes possibilitaram e que, por isso mesmo, encerram as fileiras dos que lutam por uma mídia independente – que não depende dos metacapitalistas para pagar as contas –, conectada ao povo – ou seja, não quer lhes impor uma agenda oculta tramada desde alguma saleta em Genebra ou Xangai – e que preza pela verdade jornalística acima de qualquer coisa.

 

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Jonny veridico
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Jonny veridico

Esse livro é o próprio fakenews. Qualquer livro BolsonariSta sobre fakenews será a merda falando do cu sujo.

kohls 30% off
Visitante

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