Roquetti não tinha função definida e teria sido corresponsável por polêmicas do Hino Nacional

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Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil
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Roquetti teria sido um dos principais responsáveis por criar a polêmica dos vídeos do Hino Nacional, explica Silvio Grimaldo, ex-assessor especial do Ministro da Educação. Em seu perfil no Facebook, Silvio detalhou os planos do Ministro Vélez, que o ex-assessor considera ser um ótimo ministro e capaz de fazer um excelente trabalho pela educação no Brasil.

Ainda com base em sua experiência no MEC e equipe de transição, Silvio destaca que Roquetti passou a não ter uma função bem clara dentro da estrutura, mas transitava e orbitava o ministro, exercendo uma influência nociva. Sem precisar assinar nada, Roquetti sequer apresentava relatórios, embora tenha ocupado cargo e PMO (Gestão de Projetos e Progamas) na equipe de transição, e depois teria se tornado responsável pelo “trabalho de inteligência”.

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Confira abaixo o texto do ex-assessor do Ministro divulgado em seu perfil pessoal no Facebook.:


Em toda essa história do MEC e das pretensões ministeriais do Coronel Roquetti, uma coisa precisa ficar clara: pelo menos na minha opinião, e também na opinião do Olavo, o professor Vélez tem todas as qualidades para ser um grande ministro. Ele é certamente o sujeito mais inteligente e culto que já sentou naquele gabinete. É um homem de uma coragem incomum e de uma honestidade inquestionável.

Desde que assumiu o ministério, sempre deixou bem claro o que gostaria de fazer:
– acabar com os mil esquemas de corrupção que aconteciam lá dentro;
– responsabilizar os reitores das Federais pelos crimes de improbidade cometidos nas administrações passadas; retirar as Federais das mãos dos sindicatos;
– dar mais autonomia e condições para os municípios decidirem suas políticas educacionais e linhas pedagógicas;
– criar uma política nacional de alfabetização baseada em evidências científicas e pedagogias eficazes, empregadas em todos os lugares do mundo que conseguiram erradicar o analfabetismo;
– estabelecer um padrão de programas e políticas públicas que possam ser monitorados mediante indicadores claros dos resultados obtidos, e não apenas, como na forma atual, pelo orçamento gasto;
– investir em um ensino médio profissionalizante decente, voltado para o empreendedorismo e para novas tecnologias;
– re-direcionar a verba de pesquisa das universidades para centros de excelência, evitando o gasto irresponsável com pautas ideológicas, que não dão retorno algum para a sociedade.

Para executar essas idéias, ele sabia que enfrentaria vários problemas: o Conselho Nacional de Educação, o desastre da BNCC, os sindicatos de professores, as ONGs capitalistas ligadas a bancos e empresas educacionais, as fundações e instituto filantrópicos com pautas globalistas, o Banco Mundial, a Unesco, parlamentares proprietários ou ligados a universidades particulares e, claro, a mídia e gente como Paulo Saldanha, Renata Cafardo, Lauro Jardim, Mônica Bergamo, Marco Antonio Vila e os três porquinhos do blog das Meninas Super Poderosas.
Para fazer o MEC navegar por toda essa rede de steakholders e de interesses políticos, ideológicos e económicos, Vélez montou uma equipe de primeira linha, embora a mídia insista na narrativa dos “jovens sem experiência”. Todos os secretários têm desempenhado exemplarmente sua função e são pessoas muito competentes. Assim como a maior parte dos assessores, tanto do gabinete quanto das secretarias. Mas também, um pouco pela confusão que era o gabinete de transição, entrou muita gente com interesses e valores que não correspondiam aos novos anseios populares de mudança que se viram representados na eleição do presidente Bolsonaro. Isso era normal, até certo ponto esperado, e o ministro só precisava de um pouco de tempo para fazer a devida faxina, sem cometer injustiças.
Entre esses secretários e assessores reconhecia-se facilmente um grupo que representava o espírito da nova geração, gente comprometida com o projeto do presidente Bolsonaro, que havia se dedicado à causa que culminou na sua eleição desde muito antes da campanha e do impeachment. Entre outras coisas, esse grupo tinha em comum o fato de serem alunos, leitores ou admiradores do professor Olavo de Carvalho. E esse grupo incomodava. Pouco, mas incomodava. Pois era ele quem sempre cobrava mais alinhamento com o presidente da república, mais fidelidade ao Bolsonaro, mais fibra e mais, digamos, faca na bota e sangue nos olhos. E incomodava sobretudo os pusilânimes, como o coronel Roquetti, que por uma combinação de fatores, passou a isolar e monopolizar o acesso ao ministro, tendo sobre ele uma influência claramente nociva. E esse foi o único erro do ministro Ricardo Vélez Rodriguez, confiar cegamente num sujeito cuja ambição era desmedida, e cujas pretensões de gênio político eram muito exageradas para alguém com inteligência e cultura tão modestas.
A função do coronel Roquetti no MEC nunca ficou clara para ninguém, nem para os assessores do gabinete, nem para os secretários. Ele está nomeado como diretor de programas da Secretaria Executiva, mas dá expediente como um assessor especial dentro do gabinete, numa sala com acesso direto à sala do ministro. Na Executiva, ele nunca fez porra nenhuma. A princípio, ele seria o responsável pelo PMO do MEC, ou seja, pela organização do portfólio de programas, mas logo mudou seu foco para a criação de um mega centro de inteligência, que integraria a área política, a jurídica, a gestão e a educacional, unificando a produção de informações relevantes e organizadas para que o ministro pudesse tomar decisões embasadas. Isso, porém, nunca passou de um desenho esquemático numa lousa branca em sua sala, que ele gostava de mostrar orgulhosamente para cada visitante que recebia. O seu serviço de inteligência nunca produziu um relatório, um informe, um perfil, nada, nenhum documento que pudesse servir de base para qualquer tomada de decisão. Cheguei a conversar com o ministro sobre o problema e o alertei: análise de inteligência sem informe escrito tem um nome, fofoca! Fui ignorado e o professor Vélez continuou a se orientar com base no que lhe dizia o coronel.
Com o tempo, a influência do coronel sobre Vélez aumentou, e ele acabou abandonando qualquer pretensão de ter uma função específica dentro da estrutura ministerial. Perambulava pelo gabinete como a eminência parda do ministro, dando ordens, tomando decisões, indicando amigos para os cargos que vagavam. Era um poder imenso acompanhado de nenhuma responsabilidade. Ele mandava e desmandava e não precisava assinar um documento, um processo, um papel. Seu CPF nunca entrou na reta!
Isso ficou evidente no famoso caso da Carta do Hino. A idéia, segundo Vélez, viera do presidente Bolsonaro: enviar uma carta para as escolas dando boas-vindas aos alunos e sugerindo que as crianças cantassem o hino nacional. O pedido presidencial foi atendido, mas mal executado. O ministro redigiu a carta e o e-mail, a secretaria de comunicação os corrigiram. O ex-chefe de gabinete, que é aluno do Olavo, foi apenas informado de que a carta seria enviada. Mostram-lhe o documento e nada lhe foi perguntado. O único a ser consultado sobre a carta dentro do gabinete foi o coronel Roquetti. E nada se faz ali sem sua autorização. O “chefe de inteligência” a leu e, dentro da sua imensa esperteza política, concluiu que estava tudo ok, que não “daria nada”.
Além da forma com que a carta fôra redigida, o timing era péssimo: às vésperas da mais dura audiência pública com o ministro, na comissão de educação do Senado. Ali, ele seria massacrado devido às polêmicas anteriores e agora tinha mais uma encrenca sobre a qual teria que responder.
Nenhum dos “olavetes do MEC” foi consultado. O professor Vélez contava com um grupo de assessores que jamais teria deixado a carta sair daquele jeito e naquele momento. O coronel Roquetti, acostumado com o mundo exato da engenharia aeronáutica e com a ordem da hierarquia militar, amador em política, deixou a coisa passar e submeteu o ministro a um desnecessário processo de humilhação pública, seguido de várias correções e reenvios do documento, que só lhe aumentaram o desgaste.
Errar na avaliação das consequências seria totalmente perdoável, mas logo em seguida a ala dos “gestores do mec” vazou para a imprensa a versão de que a carta era idéia de Olavo de Carvalho, levada ao ministro por mim e pelos “novinhos ideológicos”. A narrativa era perfeita: os responsáveis se limpavam da cagada em quem não tinha nada com aquilo, e ainda arrumavam uma boa desculpa para desarticular a influência do Olavo no ministério, colocando os “bolsonaristas radicais” na geladeira. E mais uma vez o coronel jogou o ministro no meio de uma polêmica desnecessária, e o fez perder aliados importantíssimos.
Continuo acreditando que o professor Ricardo Vélez tem todas as credenciais para fazer uma excelente gestão no MEC e mudar completamente o paradigma da educação nacional. Mas para isso, ele precisa se livrar dos maus conselheiros e dos falsos amigos, e mostrar ao povo brasileiro a sua verdadeira voz. E espero sinceramente que ele o faça!

 

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